Feliz quem tem uma PEDRA em SAGRES

Palavras-chave | Keywords

"Boca do Rio" "Ermida da Guadalupe" "Farol de São Vicente" "Fauna e Flora" "Fortaleza de Sagres" "Gentes & Paisagens" "Gentes de Vila do Bispo" "Geologia e Paleontologia" "História do Mês" "Martinhal" "Menires de Vila do Bispo" "Paisagens de Vila do Bispo" "Tales from the Past" "Vale de Boi" 3D Abrigo Antiguidade Clássica Apicultura ArqueoAstronomia Arqueologia Experimental Arqueologia Industrial Arqueologia Pública Arqueologia Subaquática Arquitectura Arte Rupestre Artefactos Baleeira Barão de São Miguel Base de Dados Bibliografia Budens Burgau CIVB-Centro de Interpretação de Vila do Bispo Calcolítico Carta Arqueológica de Vila do Bispo Cartografia Cetárias Cista Complexo industrial Concheiro Conservação e Restauro Descobrimentos Divulgação EPAC Educação Patrimonial Escolas & Paisagens de Vila do Bispo Espeleo-Arqueologia Estacio da Veiga Estela-menir Etnografia Exposição Figueira Filme Forte Fotografia Geographia Grutas Homem de Neandertal Idade Contemporânea Idade Moderna Idade Média Idade do Bronze Idade do Ferro Iluminados Passeios Nocturnos Ingrina Islâmico Landscape Medieval-Cristão Megalitismo Mesolítico Mirense Moinhos Moçarabe Museologia NIA-VB Navegação Necrópole Neo-Calcolítico Neolítico Neolítico Antigo Paleolítico Património Edificado Património natural Património partilhado Pedralva Pesca Povoado Proto-história Pré-história RMA Raposeira Recinto Megalítico/Cromeleque Referências Romano Roteiro Sagrado Sagres Salema Santos Rocha Seascape São Vicente Toponímia Vila do Bispo Villa Romana arte biodiversidade marisqueio menires mitos & lendas
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História do Mês N.º 52 - O remoto Passado da povoação de Barão de São Miguel: histórico da investigação e algumas ‘antigas’ novidades arqueológicas

Iniciada em janeiro de 2015, a História do Mês consiste numa iniciativa de investigação e divulgação cultural promovida pelo Centro de Interpretação de Vila do Bispo, com a qual se apresenta, mensalmente, um tema relativo ao riquíssimo e diversificado património natural e cultural disponível no nosso território. Além da investigação, valorização, difusão e partilha sociocultural de determinados apontamentos e curiosidades da memória coletiva do concelho e das gentes de Vila do Bispo, pretende-se, com esta iniciativa, provocar hábitos de visita aos nossos equipamentos culturais e museológicos.

Em abril de 2019, na 52.ª edição da História do Mês, apresentamos o artigo "O remoto Passado da povoação de Barão de São Miguel", um histórico da investigação produzida até ao momento e algumas ‘antigas’ novidades arqueológicas recentemente adquiridas no âmbito dos trabalhos para a Carta Arqueológica do Concelho de Vila do Bispo

Se quer saber mais sobre a remota história de Barão de São Miguel, se quer conhecer e contribuir para um melhor entendimento do seu passado humano, se quer conhecer os seus mais remotos antepassados, se sente curiosidade pelos métodos da Arqueologia, então esteja atento, pois, muito em breve, será convidado a participar num partilhado projeto de investigação que terá lugar em Barão, uma colaboração entre a Câmara Municipal de Vila do Bispo, a Junta de Freguesia de Barão de São Miguel e, claro, a comunidade local... os justos herdeiros e verdadeiros responsáveis pela sua herança coletiva. Com mais alguns fragmentos deste incrível e sempre incompleto puzzle da aventura humana, será então possível esboçar uma narrativa e contar uma história sobre a sequência de presença humana no atual território da freguesia de Barão de São Miguel!


História do Mês n.º 37 - "A Estela da Figueira: um guerreiro de pedra da Idade do Bronze no tempo dos heróis de Troia"

A 'História do Mês' consiste numa iniciativa expositiva do Centro de Interpretação de Vila do Bispo iniciada em janeiro de 2015 onde, mensalmente, se apresenta um objeto e/ou um associado discurso informativo. Além da divulgação, valorização e partilha de determinados apontamentos e curiosidades da memória coletiva do território, pretende-se, com esta iniciativa, provocar hábitos de visita ao nosso equipamento cultural.
A nossa 37.ª 'História do Mês', a primeira do ano de 2018, apresenta "A Estela da Figueira: um guerreiro de pedra da Idade do Bronze no tempo dos heróis de Troia". 

Visite o Centro de Interpretação de Vila do Bispo e aproveite a oportunidade para explorar a 19.ª edição da Mostra de Artistas do Concelho de Vila do Bispo.

Povoado do Monte do Grelha | Sagres

No âmbito do projeto “Carta Arqueológica do Concelho de Vila do Bispo”, ao longo das últimas semanas intensificámos as saídas de campo, aproveitando o óptimo anual da prospectabilidade arqueológica – a vegetação baixa e seca e os terrenos lavrados permitem janelas de visibilidade que potenciam a identificação de vestígios do passado.
Foi assim que, entre outras recentes descobertas, identificámos mais um provável povoado pré-protohistórico, em parte exposto pela extração de areias, numa área dunar superficialmente concrecionada, junto do Monte do Grelha, em Sagres, a cerca de 800 metros do povoado do Catalão.
Quer ao nível da implantação na paisagem, como dos vestígios registados à superfície, este novo arqueossítio apresenta características muito similares relativamente ao povoado do Catalão, local onde a investigação arqueológica documentou uma ocupação enquadrável na fase de transição entre o Calcolítico e a Idade do Bronze.
A nossa informal e multidisciplinar equipa, desta feita formada por Ricardo Soares (arqueólogo), Beatriz Tomás Oliveira (geóloga) e Álvaro Banaco (técnico de turismo), registou os seguintes vestígios: abundante fauna malacológica, dominando o mexilhão e a lapa, assinalando-se, também, restos de búzio, caramujo (burgau) e unhas de perceve; indústria macrolítica em grauvaque; uma erodida estrutura de combustão (lareira), exposta pela extração de areias, composta por termoclástos e preenchida por “orgânicas” areias negras; uma significativa quantidade de fragmentos de cerâmica manual (bordos simples, fundos planos, cozeduras redutoras e superfícies brunidas não reticuladas) que, pela análise macroscópica das pastas, se admite, em parte, resultarem de produção local, pois apresentam pastas que incorporam elementos desengordurantes presentes na geologia da área. Apenas se identificou um núcleo em sílex, o que corrobora a nossa preliminar proposta cronológica – transição Calcolítico-Idade do Bronze –, sobretudo alicerçada na proximidade e semelhança com a implantação e materiais descritos do povoado do Catalão.


História do Mês de Julho | o sítio do Catalão (Sagres) na transição da Idade do Cobre para a Idade do Bronze

A 'História do Mês' consiste numa iniciativa expositiva do Centro de Interpretação de Vila do Bispo, onde mensalmente se apresenta um objeto histórico-arqueológico e um associado discurso informativo.
Além da divulgação, partilha e valorização de determinados apontamentos e curiosidades da memória coletiva do território, pretende-se, com esta iniciativa, provocar hábitos de visita ao nosso equipamento cultural.
Sugestão: durante o mês de julho de 2015 passe pelo Centro de Interpretação e fique a conhecer a importância do sítio arqueológico do Catalão, em Sagres, para a compreensão da transição da Idade do Cobre (Calcolítico) para a Idade do Bronze no território hoje denominado de 'Vila do Bispo'.


O sítio do Catalão (Cruz da Rata) | Sagres

Prospecções na área do sítio do Catalão (Setembro, 2014)
indústria "Mirense" (abundantes lascas e uma metade distal de 1 grande machado em grauvaque), 1 peso de rede sobre seixo (?); 1 movente-percutor (grauvaque); 1 fragmento de dormente de mó manual (grauvaque); raros restos de talhe e 1 núcleo de sílex; fragmentos em lasca de xisto de tipo "ardósia" (exógeno!); diversos restos de fauna malacológica (conchas de mexilhão, lapa, amêijoa, caramujo e búzio); diversos fragmentos de cerâmica manual, designadamente correspondentes a pequenas taças carenadas de pastas finas, a grandes contentores com paredes internas brunidas e 1 fino bordo com perfuração de suspensão.

O texto que se segue consiste num resumo produzido a partir da leitura da Tese de Mestrado de Jorge Correia (UALG), acerca da jazida arqueológica do Catalão, um interessante e raro sítio enquadrável na transição do Calcolítico (vulgo Idade do Cobre) para a Idade do Bronze.


Introdução
O local designado por Catalão é mencionado pela primeira vez no Levantamento Arqueológico de Vila do Bispo, onde se regista a ocorrência de evidências, nomeadamente “(…) indústrias sobre seixos e sobre lascas, algumas de tipo ‘mirense’, assim como artefactos de pedra polida (…)” (Gomes e Silva, 1987:59), ocorridas ao longo de vários períodos.
Entre 1996 e 2001 decorreu o projecto A Ocupação Humana Paleolítica do Algarve, sob a orientação e responsabilidade do Nuno Bicho, que permitiu localizar algumas dezenas de sítios arqueológicos, nomeadamente o Catalão, cujos contextos frequentemente revelaram economias relacionadas com o litoral.
O sítio do Catalão 1 foi detectado em 1998 através da presença de variados vestígios, nomeadamente fragmentos de cerâmica, valvas de moluscos marinhos e de um “machado mirense” localizados no rebordo da cratera resultante da extracção de areia, que consequentemente, terá destruído parte significativa da jazida arqueológica (Bicho, 2000).
Posteriormente e em sequência do projecto supramencionado, desenvolveram-se outros dois, respectivamente sob a orientação de Professor Doutor Nuno Bicho e de Doutor António Faustino Carvalho, (A Importância dos Recursos Aquáticos no Paleolítico do Algarve e O Processo de Neolitização do Algarve). No segundo caso os objectivos assentaram sobretudo na investigação dos contextos conquíferos dos sítios detectados, e foi no âmbito deste que se efectuaram os trabalhos de escavação relativos ao sítio do Catalão.

Localização
O sítio arqueológico, denominado Catalão 1, localiza-se na região SW do Algarve, bem exposta ao clima francamente Atlântico. Situa-se geograficamente no local conhecido por “Cruz da Rata”, Freguesia de Sagres, Concelho de Vila do Bispo, Distrito de Faro, a uma cota de 95 metros.
Encontra-se a cerca de 5,2 Km, para sudoeste da vila de Vila do Bispo e dista de 2 e 4,2 Km da costa W e S respectivamente.

Os trabalhos Arqueológicos
O sítio do Catalão 1 encontra-se implantado num antigo areeiro que na consequência da sua exploração destruiu uma parte significativa da jazida arqueológica. Do corte, exposto pela acção daquela actividade extractiva, foi possível recolher restos de cerâmica, valvas de moluscos marinhos (datados pelo radiocarbono de finais do III milénio a. C.) e vários machados mirenses. As evidências indicam que a ocupação teve lugar no sopé da vertente Sul da duna.
As escavações realizaram-se, sob a direcção de António Faustino Carvalho, entre 19 e 22 de Agosto de 2002, após a observação de que o sítio se encontrava em processo de erosão, sendo o registo do seu contexto e a urgente salvaguarda do sítio da erosão subsequente uma prioridade.
Na limpeza sumária de corte efectuada anteriormente por Nuno Bicho recolheu-se um conjunto de conchas que resultaram numa datação absoluta de cerca de 3.600 BP (cerca de 1.900 cal AC). Esta cronologia insere o Catalão no período de transição entre o Calcolítico e a Idade do Bronze.

A questão “Mirense”
Podemos concluir, confirmando, segundo os novos dados retirados do Catalão, que o utensílio (machado mirense) que caracterizava a “cultura mirense” não se encontra exclusivamente associado a essa cultura, uma vez que a sua utilização perdura, efectivamente, até ao início da Idade do Bronze. Desta forma deixa de fazer sentido pensar nos machados mirenses como fósseis-directores do Mirense.

Interpretações
As evidências arqueológicas, relativas ao Catalão, são efectivamente bastante reduzidas, o que dificulta, de certa forma, a formulação de uma interpretação mais aprofundada e abrangente do sítio. Sem dúvida que este facto se deve em particular à destruição quase total do sítio devido à exploração do areeiro. Podemos, contudo, e com base nos escassos vestígios, tentar decifrar qual o seu papel em termos económicos e sociais.
No que respeita à sua funcionalidade podemos, efectivamente, inferir que se trata de um acampamento funcionalmente especializado, que serviu como local de apoio à exploração dos recursos costeiros, nomeadamente o marisqueio, possivelmente a pesca, como testemunha a presença de um possível peso de rede. O aprovisionamento de sílex algarvio também pode ter sido um dos factores locativos para o Catalão, uma vez que essa matéria-prima se localiza a menos de 3 km do Catalão.
As prováveis funções de que foi palco o acampamento terão, de certa forma, estado relacionadas com as actividades inerentes à exploração dos vários recursos, como a preparação dos vários equipamentos (por ex. fabrico de utensílios líticos, arranjo de redes e processamento de alimentos entre outros). O processamento no local dos recursos alimentares tem como fundamento a presença de duas estruturas de combustão e recipientes de cerâmica, verosimilmente utilizados para tal fim. A presença de um suposto peso de rede, leva a crer que poderá ter ocorrido naquele acampamento arranjos e preparações de redes de pesca.
Relativamente à ocupação do sítio em termos de duração e altura do ano parece, segundo as evidências, revelar uma ou mais curtas estadias. Esta ilação fundamenta-se, em primeiro lugar nas características do sítio, efectivamente por se tratar de um acampamento especializado sem estruturas arquitectónicas de habitação; em segundo lugar na presença de duas estruturas de combustão, possivelmente relacionadas com uma ou duas estadias no sítio; em terceiro lugar, a quantidade reduzida de restos faunísticos unicamente de natureza malacológica, revela refeições pouco numerosas. Não podendo ser descartada a hipótese de haver outros alimentos de natureza mais perecível, como por exemplo carne seca e legumes, entre outros, em último lugar, a reduzida quantidade de artefactos, tanto em termos quantitativos como em termos de diversificação, anuncia um sítio especializado na recolecção de marisqueio e pesca, actividades que se praticavam, por hipótese, sazonalmente. Estas actividades poderiam ocorrer a partir da Primavera e durante o Verão, visto que estas estações se manifestam como períodos climatéricos mais propícios a estas actividades.
A diversidade e quantidade de recursos secundários, nomeadamente agrícolas, que possivelmente se encontravam disponíveis dentro de uma área com esta extensão seriam de certa forma vitais para a sobrevivência deste grupo. O acesso a tais recursos, possivelmente, seria efectuado recorrendo a embarcações, visto que durante a Idade do Bronze o conhecimento e recurso à arte de navegar constituía um papel fundamental para comunidades cuja relação com os meios aquáticos era fundamental para a sua sobrevivência, tal como é evidenciado por Van de Noort, et al., (1999), segundo os vestígios de uma embarcação na praia de Kilnsea (Yorkshire, Inglaterra), datado de 1870-1670 BC. Este meio de transporte terá sido fundamental em termos económicos, visto que diminuía o tempo necessário para efectuar a ligação entre a costa e o interior, utilizando as várias vias fluviais, nomeadamente o Rio Arade, o Rio de Alvor e a Ribeira de Aljezur, permitindo trocas de bens entre outras comunidades, possivelmente com Alcalar e Corte Cabreira.
De certa forma, as evidências arqueológicas do Catalão revelam um grupo, aparentemente pouco ou nada complexo, ilação baseada na ausência de vestígios denunciadores de actividades de natureza ritual e hierarquizante. Com este facto podemos propor a tese de que existiram paralelamente às comunidades contemporâneas, de certa forma mais distintas e complexas, como revelam as evidências arqueológicas revistas nos capítulos anteriores, realidades diversificadas e estruturadas sobre bases económico-sociais diferentes e aparentemente menos complexas durante a transição do Calcolítico final e o Bronze inicial.
O acampamento do Catalão segundo as suas características terá possivelmente, por um lado, sido frequentado por indivíduos oriundos de povoados localizados no hinterland e sustentados economicamente pela agropecuária. Estes indivíduos terão explorado os recursos marinhos sazonalmente de modo a complementar os recursos explorados anualmente pela comunidade. Por outro lado, podemos estar perante um grupo que possui identidade cultural própria, adoptada ao meio marinho, e que explora estes recursos ao longo da faixa costeira de modo permanente. Estes recursos terão possivelmente servido como moeda de troca por outros bens entre este grupo e outras comunidades localizadas mais no interior.
Relativamente ao aspecto locativo é interessante observar que o Catalão se encontra a cerca de 2km da costa, modelo ou estratégia que parece divergir dos padrões verificados noutros sítios especializados, nomeadamente uma maior proximidade da fonte dos recursos, tal como acontece nos sítios estudados por Silva e Soares (1997), do qual são exemplos Montes Baixos, Oliveirinha (Bronze Médio), Palheirão Furado (Bronze Antigo), Vila Nova de Milfontes – ETAR (Calcolítico). Todos estes sítios se encontram perto das arribas com alguma proximidade dos recursos marinhos explorados.
É justo, com base nesta observação, questionar se realmente este acampamento estava unicamente viabilizado para a exploração do marisco e pesca ou terá havido outro recurso mais próximo de maior importância e cujas evidências não surgiram nos registos arqueológicos?
A cerca de 100 m do Catalão localiza-se uma necrópole, Catalão 2, de onde fora exumado um recipiente cerâmico. A idêntica composição das pastas provenientes dos dois sítios levanta a hipótese de estes terem sido utilizados pela mesma comunidade ou por grupos idênticos. De certa forma a presença desta necrópole e a existência de terrenos com solos de boa aptidão agrícola, ainda hoje agricultados, leva-me a supor, hipoteticamente, que poderá ter existido um habitat permanente localizado nas proximidades. É evidente que estas hipóteses só poderão ser fundamentadas e provadas recorrendo a futuros trabalhos de prospecção no terreno.
Concluídas as análises possíveis a um sítio com estas características, é fundamental deixar uma nota final no que diz respeito a muitos sítios que aparentemente não revelam grandes exuberâncias materiais e que por esta razão ficam por estudar por parte da grande maioria dos investigadores, mas que poderão ainda vir a revelar-se. Este foi o caso do Catalão que, após um estudo aprofundado, revelou evidências importantes que vieram preencher hiatos e consolidar teses que careciam de dados sustentáveis na investigação arqueológica.

Sepulturas (cistas) do Padrão | Raposeira


Localizadas na encosta poente de um discreto cerro com 82 m de altitude, 270 m SE do menir (re)erguido do Padrão (à direita da EM1257 – Raposeira-Ingrina), 1 km a sul do vértice geodésico "Milrei" (outra área de concentração megalítica), encontram-se duas sepulturas de tipo "cista", estruturadas por lajes de calcário bem aparelhadas "em cutelo"
Em 1987, estas sepulturas foram objecto de escavações arqueológicas dirigidas por Mário Varela Gomes. Há muito violadas, ainda assim foi possível recolher alguns fragmentos cerâmicos de taças carenadas  "fóssil director" para a Idade do Bronze.
Junto das sepulturas, ainda se encontra uma laje/tampa completa, anexa a uma das cistas; dois fragmentos de outra laje/tampa, correspondentes à outra cista; um pequeno menir de calcário (entre as sepulturas); um interessante bloco afeiçoado em calcário, interpretado como "estela-menir", que, pelo facto de apresentar uma forma antropomórfica ("entalhes de ombros"), constitui um argumento em favor da tese que defende os menires enquanto representações escultóricas da forma humana e as estelas-menires enquanto evolução dos menires.
A 50 m deste conjunto, dominando o cerro, um grande menir (9) fragmentado em 3 partes, cujas escavações, de que foi alvo em 1987, também realizadas por Mário Varela Gomes, permitiram revelar um pequeno tumulus, de disposição subcircular, com 5 m de maior diâmetro e 50 cm de espessura pétrea. O tumulus apresentou-se como uma "couraça" com 3 anéis de blocos de pedra, onde se escondia um "depósito de oferendas": elementos de um mó manual em grauvaque (dormente e movente); um artefacto de forma ovóide; uma parte de um vaso cerâmico; restos de fauna malacológica (lapas).
Mais uma vez foi documentado, no nosso concelho, um exemplo de (re)sacralização de um monumento megalítico por culturas e cultos ulteriores, neste caso pelas gentes da Idade do Bronze.
Trata-se, portanto, de um interessante conjunto arqueológico, disposto numa ainda apelativa paisagem natural, que merece atenção, preservação e futura fruição organizada...

Bibliografia de referência: 
GOMES, M. V. e SILVA, C. T. da (1987)  Levantamento Arqueológico do Algarve - Concelho de Vila do Bispo. Delegação Regional do Sul. Secretaria de Estado da Cultura. 


10.06.2014
29.08.2014 - erectus!!!
(as fantásticas dinâmicas dos menires de Vila do Bispo...)
Menir 9 e tumulus, segundo Mário Varela Gomes

Os zoomórficos do Monte da Pedralva | Budens


Em 1891, Estacio da Veiga refere no volume IV das suas Antiguidades Monumentaes do Algarve, no sítio do Monte da Pedralva, a fortuita descoberta de três objectos metálicos: “uma fita de ouro grosseiramente batido” e “duas figuras de bronze, de quadrupedes, um touro, um javali (?) com os caninos inferiores de prata”.
Em 1987, Carlos Tavares da Silva e Mário Varela Gomes, na sequência dos seus trabalhos para o Levantamento Arqueológico do Algarve – Concelho de Vila do Bispo (GOMES, M.; SILVA, C.T. (1987) – Levantamento Arqueológico do Algarve. Concelho de Vila do Bispo. Vila do Bispo: Secretaria de Estado da Cultura), voltam a referir estes artefactos, precisando o Barranco das Colmeias, na Herdade do Arieiro, como local da sua ocorrência, integrando-os em cronologias da Idade do Ferro – século IV a.C.
Actualmente, as duas estatuetas zoomórficas encontram-se à guarda do Museu Nacional de Arqueologia.
Segue-se a referência original destes achados, por Estacio da Veiga.

VEIGA, E. da (1891) – Antiguidades Monumentaes do Algarve - Tempos Prehistoricos, vol. IV. Lisboa: Imprensa Nacional, p. 171-176.

Monte da Pedralva (Vol. IV p. 171-176)

«Este monte está situado a noroeste e distante uns 5 kilometros de Villa do Bispo, a pouco mais de 4 kilometros da igreja da Raposeira, na mesma orientação, e a sueste pouco mais de 4 kilometros da mina de manganez do Morração, que fica á mesma distancia ao sul da aldeia da Carrapateira. Pertence o dito monte á herdade do Arieiro, onde duas crianças, andando por uma estreita vereda, viram luzir á superfície do chão um objecto, que fôram tirar com o auxilio de uns pedacinhos de madeira. Era uma fita de ouro grosseiramente batido, da largura de 0m,020, feita em pedaços, que media quasi 1 metro de comprimento, a qual parecia cingir duas figuras de bronze, de quadrupedes, um touro, e um javali (?) com os caninos inferiores de prata. A fita sabe-se que foi vendida a um ourives, e as figuras de bronze obteve-as o sr. Judice dos Santos, o qual indagou que no logar do achado ha um filão de mineral e indicios de mina antiga, parecendo queimada ou com residuos de fundição a terra em que estavam os ditos objectos.
Ora, a mina que se conhece hoje mais proxima do Monte da Pedralva, como já disse, é a de manganez do Morração, cujo reconhecimeto foi feito em 1886 pelo sr. Neves Cabral, no serro do Canafrechal, com seguimento para oeste e terminando em escarpa abrupta na propinquidade do oceano entre a praia da Fuzelha e a do Amado; mas na sua estatistica mineira, publicada em 1886, não a cita; nota, porém, que o manganez forma jazigos em massa ou bolsadas de configuração lenticular intercaladas na estratificação dos schistos e quartzites.
«Estes jazigos, diz o distincto engenheiro de minas, acompanham muito de perto, tanto em Portugal corno na provincia hispanhola de Huelva, os jazigos pyrito-cupriferos que occupam a mesma zona.»

Portanto, é mui provavel que alli perto se tivessem achado em antigos tempos alguns minerios de cobre e que os vestigios de fundição não fôssem de manganez, mas de cobre, ou de bronze.

Todas estas circumstancias são porém insufficientes para que se possa determinar a epocha a que pertencem as figuras de bronze e essa fita de ouro, que não cheguei a observar, mas que, a ser exacta a informação dada ao sr. Judice dos Santos pelo camponez que a vendeu a um ourives, representa um trabalho primitivo, se com effeito foi estendida a choques de percutor e ainda os deixava perceber. Póde pois ter sido um adorno similhante áquelle que figuro na est. IV sob n.º 2, achado com instrumentos de cobre no monumento n.º 4, de Alcalá, cujo trabalho tosco estivesse ainda em uso quando foram fundidas as duas figuras de bronze que represento nas estampas XX e XXI; poderá porém a configuração, a fusão e o preparo das figuras deixar ao menos presumir a epocha da sua fabricação? Faltam exemplos do mesmo genero nos museus nacionaes, achados em condições archeologicas conhecidas e classificadas com seguro fundamento; porque geralmente nos museus e na grande maioria das collecções particulares só se pretende que entre toda a casta de cousa que se tenha achado em qualquer parte, e nada se registra em devida regra, havendo por isso objectos que seriam de apreciavel importância, se fôssem conhecidas as localidades e condições dos seus jazigos.

É, portanto, preciso recorrer a meios estranhos para se ficar percebendo alguma cousa.

A est. XX, permite julgar que o auctor do original que ella representa, teve os melhores desejos de figurar um touro, pois até certo ponto conseguiu traçar no molde um delineamento tal, que deixa adivinhar ter sido esta a sua intenção. O touro saíu porém um tanto mocho. O molde que deveria ter empregado para ornar a fronte pouco taurina do animal, foi o que elle inseriu no logar da cauda. A respeito de orelhas, mal se percebe o logar que deviam occupar, e o focinho ficou mais agudo que trombudo. As pernas dianteiras são muito mais robustas que as trazeiras; a direita mede na espessura superior, metade da altura do abdomen á linha, dorsal; foi porém muito cuidadoso em rachar as unhas ao bicho, mas não atinou com a fórma das patas: entretanto, mostra ter-se querido esmerar na perna direita posterior, accentuando com farto engrossamento lateral a articulação dos dois ossos, deixando porém a tibia talvez quatro vezes mais curta que o femur: emfim; em vez de boi saíu-lhe um monstro em attitude de marchar para a direita.

Comparado com a figura do boi, representada nas mais antigas moedas de legendas peninsulares, é mister inscrever este conjunto de imperfeições n’outra epocha muito anterior á da cunhagem d’aquellas moedas, quer seja na primeira idade do ferro, ou talvez ainda nos ultimos tempos da idade do bronze, tanto mais se confrontarmos a rudeza da cabeça d’esse aleijão bovino com a em que remata um picarete de alvado central, de tromba bicornuta, achado em Jelabugy, que Worsaae nos mostra estampado com o n.º 7, pag. 44, como um dos representantes da idade do bronze na Russia.

É porém ainda muito mais brutesca a figura da est. XXI, companheira do touro de Pedralva, cuja representação intencional é para mim um tanto duvidosa, não se podendo affirmar se o cinzelador que deu o modelo para a fundição quiz figurar um javali, um hyppopotamo, ou a sua própria imagem.

Observando-se attentamente a configuração da cabeça, das orelhas, dos olhos, da tromba descommunalmente larga, da cauda simplesmente assignalada, da linha dorsal mui arqueada, da enorme grossura das pernas sem signal de articulações, e das patas rematadas em saliente e espesso calcaneo, não parece que tantas desconformidades se juntassem ao mesmo tempo com o fim de se representar um javali.
Parece-me approximar-se um tanto menos impropriamente do hyppopotamo, comquanto não se possa dizer que fôra isso mesmo que o artista havia pretendido figurar, porque nenhum dos dois viventes ficou sendo reconhecivel; e comtudo o auctor julgou ter tão perfeitamente conseguido o seu desenho, que para melhor o dar a conhecer teve ainda a singular habilidade de lhe encravar dois mui salientes caninos de prata na enorme mandibula.
A arte de fundir o bronze é que estava muito atrazada; pois cada peça, toda crivada de bolhas de ar e de cavidades resultantes de substancias terrosas que correram com o minerio derretido, parece antes formada de escoriaes do que de bronze; o que, em vista de tal impureza, permitte presumir que o mister da fundição estava ainda pouco experimentado.
No museu de Evora ha um javali de bronze cujos delineamentos já são regidos pelo sentimento artistico do modelador; mas não se sabe onde e como foi achado; não parece, porém, que ultrapassasse as raias do dominio romano, e se assim é, aqui temos, pela comparação, mais um argumento em abono da maior antiguidade dos exemplares de Pedralva, os quaes, com as devidas reservas, incluo n’uma das phases da idade do bronze, tendo em vista o primor artistico que assignalou os ultimos tempos d’essa idade.
Mas que representação tinha o boi e o javali? Não seriam symbolos de um culto supersticioso?
N’este caso, teria de considerar os dois monstruosos animalejos do Monte da Pedralva como idolos de uma seita religiosa; mas D. Antonio Delgado considera o javali e o touro como emblemas de duas raças, que vieram povoar a peninsula, porque seguiu á risca o preceito de considerar desertos todos os territorios do mundo emquanto a unidade asiatica não operou a sua universal diffusão! O javali ou cerdo era, em seu entender, o emblema dos celtas, que os gregos disseram ter sido os povoadores do Occidente.
Delgado quiz porém ir mais longe, dizendo que os taes celtas tinham abrangido os aborigens procedentes das mesmas raças que povoaram a Atlantida ou os valles do Mediterraneo anteriormente ao cataclismo que separou o Calpe e o Abyla, abrindo o estreito que uniu aquelle mar com o Atlantico; mas nem os gregos designaram a epocha em que os celtas vieram ocupar o Occidente, nem Delgado indicou aquella em que desappareceu a Atlantida e em que baqueou a ponte que ligava a Europa á Africa; e assim se tem sempre trazido illudidos os espiritos, affirmando varios auctores o que não podiam de modo algum comprovar, confundindo celtas com phenicios e symbologias relativamente recentes com factos geologicos que nunca chegaram a perceber; pois não se póde entender com que apropriado fundamento o javali e o boi, dois mammiferos da fauna terciaria da Europa, ficassem symbolisando umas migrações asiaticas, que por emquanto apenas se sabe terem chegado aos dominios da imaginação que as inventou e propagou com tal expansibilidade, que a propria Atlantida de Platão não lhes pôde escapar.
Não são as iconographias numismaticas dos tempos historicos que podem esclarecer o significado dos idolos que tiveram culto supersticioso nas idades paleoethnologicas.
Por exemplo, a vacca, diz o sr. Bouillet, era adorada no Egypto sob o nome de Isis e hoje mesmo tem culto particular entre os indios, porque estes povos pensam que no corpo d’esses animaes passa a residir a alma dos bons, e por isso a vacca logra plena liberdade em meio d’aquelles descendentes dos civilizadores do mundo e a immunidade protectora da vida, porque seria grande crime matar uma vacca, o paraizo das almas dos índios!
Não trato aqui cultos peninsulares senão muito incidentemente. Os especialistas que desenvolvam este vasto assumpto. Entretanto, deve-se entender que ao touro compete na peninsula uma iconographia especial, que os romanos parece terem achado; pois elle é representado nas moedas dos indigenas e nas romanas, em monumentos dos proprios deuses, como se observa n’um d’aquelles pertencentes ao grupo do Endovélico ou Endovólico, ultimamente descobertos pelo sr. Leite de Vasconcellos, e porventura em edificios publicos, a que pertenciam as duas toscas cabeças de pedra que em Beja foram achadas e mettidas na face externa da parede de uma igreja, que pega com a rua do Touro.
Se no corpo do javali tambem entrava alguma essencia sublime, não o sei dizer. O que julgo dever entender é que a vida do javali e do boi não estava absolutamente protegida por um qualquer culto religioso, por isso que são numerosos os ossos que d’esses e de outros mammiferos tenho encontrado em depositos prehistoricos e historicos de varias idades, como significando que o principal preceito que elles inspiravam, consistia em se lhes aproveitar a carne e abandonar os ossos. . . D’este modo, sendo assim considerada a utilidade d’esses animaes, é possível que os seus vultos em bronze não symbolisem idolos de adoração, mas simplesmente memoraveis emblemas da mais apreciavel alimentação dos povos.
Muito podéra eu aqui compilar ácêrca do que se tem escripto, relativamente ao javali e ao boi; mas deixo esta especial erudição a quem tenha mais tempo disponivel para poder dar a este assumpto maior amplitude.
Com a indispensavel reserva dou ao Monte da Pedralva as honras de estação (?) da idade do bronze.»


Estatueta votiva de javali em bronze e presas de prata
Ex-voto em bronze e prata, representativo de um provável animal sacrificado aos deuses da região do Promontorium Sacrum
Tem aspecto compacto, superfície irregular, embora apresenta alguns aspectos destacados como a coluna dorsal saliente; cresce em altura de trás para a frente, a cauda é muito curta, possui grandes cascos, os olhos são assinalados pelas pálpebras em relevo e as narinas são dois orifícios redondos bem visíveis, do focinho saem duas presas em prata.
Idade do Ferro - séc. II-I a.C.
Altura 8 cm
Largura 4 cm
Comprimento 12 cm
N.º de Inventário 17925

Estatueta votiva de touro em bronze
Ex-voto em bronze, representativo de um provável animal sacrificado aos deuses da região do Promontorium Sacrum
Tem aspecto compacto, superfície irregular, pescoço grosseiro, pernas volumosas e bastante distantes, com cauda pendente e afastada do corpo, focinho afilado, chifres pequenos, olhos e narinas quase imperceptíveis. 
Idade do Ferro - séc. II-I a.C.
Altura 7 cm
Largura 4 cm
Comprimento 12 cm
N.º de Inventário 17924

Esboços de uma História, segundo a visão criativa de
Vítor Fragoso
(um talentoso Artista local)