Feliz quem tem uma PEDRA em SAGRES

Palavras-chave | Keywords

"Boca do Rio" "Ermida da Guadalupe" "Farol de São Vicente" "Fauna e Flora" "Fortaleza de Sagres" "Gentes & Paisagens" "Gentes de Vila do Bispo" "Geologia e Paleontologia" "História do Mês" "Martinhal" "Menires de Vila do Bispo" "Paisagens de Vila do Bispo" "Tales from the Past" "Vale de Boi" 3D Abrigo Antiguidade Clássica Apicultura ArqueoAstronomia Arqueologia Experimental Arqueologia Industrial Arqueologia Pública Arqueologia Subaquática Arquitectura Arte Rupestre Artefactos Baleeira Barão de São Miguel Base de Dados Bibliografia Budens Burgau CIVB-Centro de Interpretação de Vila do Bispo Calcolítico Carta Arqueológica de Vila do Bispo Cartografia Cetárias Cista Complexo industrial Concheiro Conservação e Restauro Descobrimentos Divulgação EPAC Educação Patrimonial Escolas & Paisagens de Vila do Bispo Espeleo-Arqueologia Estacio da Veiga Estela-menir Etnografia Exposição Figueira Filme Forte Fotografia Geographia Grutas Homem de Neandertal Idade Contemporânea Idade Moderna Idade Média Idade do Bronze Idade do Ferro Iluminados Passeios Nocturnos Ingrina Islâmico Landscape Medieval-Cristão Megalitismo Mesolítico Mirense Moinhos Moçarabe Museologia NIA-VB Navegação Necrópole Neo-Calcolítico Neolítico Neolítico Antigo Paleolítico Património Edificado Património natural Património partilhado Pedralva Pesca Povoado Proto-história Pré-história RMA Raposeira Recinto Megalítico/Cromeleque Referências Romano Roteiro Sagrado Sagres Salema Santos Rocha Seascape São Vicente Toponímia Vila do Bispo Villa Romana arte biodiversidade marisqueio menires mitos & lendas
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História do Mês N.º 52 - O remoto Passado da povoação de Barão de São Miguel: histórico da investigação e algumas ‘antigas’ novidades arqueológicas

Iniciada em janeiro de 2015, a História do Mês consiste numa iniciativa de investigação e divulgação cultural promovida pelo Centro de Interpretação de Vila do Bispo, com a qual se apresenta, mensalmente, um tema relativo ao riquíssimo e diversificado património natural e cultural disponível no nosso território. Além da investigação, valorização, difusão e partilha sociocultural de determinados apontamentos e curiosidades da memória coletiva do concelho e das gentes de Vila do Bispo, pretende-se, com esta iniciativa, provocar hábitos de visita aos nossos equipamentos culturais e museológicos.

Em abril de 2019, na 52.ª edição da História do Mês, apresentamos o artigo "O remoto Passado da povoação de Barão de São Miguel", um histórico da investigação produzida até ao momento e algumas ‘antigas’ novidades arqueológicas recentemente adquiridas no âmbito dos trabalhos para a Carta Arqueológica do Concelho de Vila do Bispo

Se quer saber mais sobre a remota história de Barão de São Miguel, se quer conhecer e contribuir para um melhor entendimento do seu passado humano, se quer conhecer os seus mais remotos antepassados, se sente curiosidade pelos métodos da Arqueologia, então esteja atento, pois, muito em breve, será convidado a participar num partilhado projeto de investigação que terá lugar em Barão, uma colaboração entre a Câmara Municipal de Vila do Bispo, a Junta de Freguesia de Barão de São Miguel e, claro, a comunidade local... os justos herdeiros e verdadeiros responsáveis pela sua herança coletiva. Com mais alguns fragmentos deste incrível e sempre incompleto puzzle da aventura humana, será então possível esboçar uma narrativa e contar uma história sobre a sequência de presença humana no atual território da freguesia de Barão de São Miguel!


História do Mês de Maio | Notícia sobre uma miniatura de machado de fibrolite polida descoberta em Vale de Boi

A ‘História do Mês consiste numa iniciativa expositiva do Centro de Interpretação de Vila do Bispo iniciada em janeiro de 2015 onde, mensalmente, se apresenta um objeto e um associado discurso informativo. Além da divulgação, valorização e partilha de determinados apontamentos e curiosidades da memória coletiva do território, pretende-se, com esta iniciativa, provocar hábitos de visita ao nosso equipamento cultural.

Para o mês de maio reservámos uma história construída com o precioso contributo da comunidade local, em particular de uma criança do 1.º Ciclo do Centro Educativo de Budens, de nome Vicente dos Reis Viana. Numa das recentes Aulas de Enriquecimento Curricular - “Património Local”, dedicadas à Arqueologia do Concelho de Vila do Bispo, o Vicente partilhou com o seu “professor”, o arqueólogo municipal, uma pedrinha que carinhosamente guardava entre os seus tesourinhos de criança. A pequena pedra foi encontrada na zona de Vale de Boi pelo pai do Vicente, Nuno Viana, que, num dos seus domingos de caça, nela reconheceu particular interesse, diferenças de aspeto artefactual, de autoria humana, impossíveis de reproduzir por ação natural. Recolheu o objeto e ofereceu-o ao seu filho de 9 anos, um pequeno apreciador de pedrinhas, rochas, minerais e fósseis... de coisas especiais, de coisas antigas. Em plena aula e na palma da mão, arqueólogo e crianças examinaram a pequena pedra, transformando-a de imediato, à luz da análise arqueológica, em legítimo objeto arqueológico, em artefacto pré-histórico, numa peça do Neolítico final/Calcolítico, num legado patrimonial com cerca de 5000 anos!!!

Venha conhecer este precioso achado arqueológico e visite o Centro de Interpretação de Vila do Bispo !!!

História do Mês de Março | nos alvores do Neolítico regional: um povoado na Cabranosa com cerâmica cardial

A 'História do Mês' consiste numa iniciativa expositiva do Centro de Interpretação de Vila do Bispo iniciada em janeiro de 2015 onde, mensalmente, se apresenta um objeto e um associado discurso informativo. Além da divulgação, partilha e valorização de determinados apontamentos e curiosidades da memória coletiva do território, pretende-se, com esta iniciativa, provocar hábitos de visita ao nosso equipamento cultural.

Em março de 2016 sugerimos mais uma viagem no tempo, desta feita até aos primeiros dias do Neolítico regional. Tendo por palco o sítio arqueológico da Cabranosa, em Sagres, contaremos a história de um pequeno grupo de pioneiros pastores-agricultores e dos vestígios da sua presença, designadamente potes cerâmicos particularmente significativos...


Povoado neolítico das Furnas | Budens

Mais um inédito indício de presença neolítica no Concelho de Vila do Bispo, desta feita numa área sobranceira à Praia da Furnas (Figueira, Budens). 
Os indicadores artefactuais são relativamente abundantes, destacando-se diversos fragmentos de lamelas e lâminas em sílex e jaspe (1), fragmentos de cerâmica manual, lascas e percutores em grauvaque.
Ainda que menos expressivos, entre o espólio registado também foram isolados alguns indicadores mesolíticos e paleolíticos.
Topograficamente, trata-se de uma mancha de ocupação que se estende numa abrigada plataforma de arriba, com fácil acesso ao mar e aos seus recursos pela vertente nascente da actual Praia das Furnas. Precisamente no topo dessa vertente, também foram assinalados indícios de um muito erodido concheiro, com alguns materiais líticos associados (restos de talhe de sílex).
Uma descoberta orientada por Ramiro Santos, jovem arqueólogo local (Budens) e colaborador do nosso Projecto "Carta Arqueológica de Vila do Bispo"... obrigado amigo!


Artefactos Neolíticos em Vila do Bispo


Sebastião Philipes Estácio da Veiga, no volume II das suas Antiguidades Monumentaes do Algarve - Tempos Prehistoricos, enumera uma série de referências a achados isolados integráveis no "neolithico" de Vila do Bispo, designando-os como "instrumentos neolithicos". 
Seguem-se as suas referências:

Instrumentos neolithicos isolados (Vol. II p. 311-314)

Villa do Bispo (Vol. II p. 311)

«Machado de diorite, totalmente desengrossado pelo attrito até o córte, em que ha estragos provenientes do trabalho. Tem de comprimento 0m,140, de largura 0m,058, e de espessura 0m,033. Foi ha muitos annos achado em excavação feita n’uma rua da villa e por mim comprado em 1878 a um trabalhador alli mesmo residente. Vae figurado na estampa II sob o n.º 1.
Com o antecedente machado deixei depositado no museu um ellipsoide de diorite (?), formado por dois segmentos de esfera unidos pelos bordos, deixando aresta saliente. No maior diametro mede 0m,050, no menor 0m,046 e na espessura 0m,034. É um lustroso calhau, que parece ter já sido util, servindo de polidor. Era companheiro do machado que fica descripto, e por isso, encostado a um fiador tão idoneo, parece poder ser considerado como instrumento que teve algum prestimo na ultima idade da pedra.»

Sellanitos / Rapozeira (Vol. II p. 311)

«Machado de secção transversal elliptica, totalmente desengrossado, com o córte em arcatura, assaz obliterado. Foi achado com pedaços de louça prehistorica em terra lavrada, deixando presumir que tenha pertencido a um monumento destruido. Mede 0m,090 de comprimento, 0m,046 de largura e 0m,027 de espessura. Comprei-o no proprio logar. É figurado na estampa II sob o n.º 4.»

Catalão / Sagres (Vol. II p. 311-312)

«Machado de schisto com desengrossamento geral, e alguns estragos, tanto no córte como na extremidade inferior. Mede 0m,097 de comprimento 0m,046 de largura e 0m,025 de espessura. Comprei-o no proprio sitio do Catalão, onde me informaram de terem apparecido outros muitos. Está depositado no museu, e vae figurado na estampa II com o n.º 2.»

Cabo de São Vicente / Sagres (Vol. II p. 312)

«Pequeno machado, de configuração similhante á do antecedente, com o córte abatido. Tem de comprimento 0m,090, de largura 0m,045 e de espessura 0m,029. Comprei-o a um camponez, que me afiançou tel-o achado na fenda de uma grande rocha, já perto do mar, onde ha muitos penedos de enorme grandeza, accrescentando que outras muitas pedras de raio se têem por alli achado. Está depositado no museu e é figurado na estampa II com o n.º 3.
Este machado fez-me lembrar os cumulos de tres a quatro pedras, que Estrabão refere ter havido no Cabo de S. Vicente, e que o barão de Bonstteten entende terem sido antigos dolmens construidos n’aquella extremidade da terra. É mui provavel haver pertencido a algum monumento actualmente destruido, ou talvez já precipitado no mar; pois que mui visivelmente toda aquella ponta de terra, continuamente batida pelas aguas do oceano, tem soffrido mui sensiveis deslocamentos. Se os monumentos, a que se refere Estrabão, estavam mui propinquos ao mar, não foi outra, a meu ver, a causa do seu desapparecimento.»

Budens (Vol. II p. 312-313)

«A aldeia de Budens está situada entre o extincto rio de Almádena e a ribeira da Zorreta. Todo esse tracto de terra fertil, comprehendido entre duas correntes de agua, foi utilizado por todas as nacionalidades prehistoricas e historicas que no Algarve ficaram caracterisadas. Houve alli notabilissimos centros de população. Só o riquissimo terreno de Budens, para ser explorado, como convinha, não exigiria menos de seis a oito mezes de trabalho activo com quarenta operarios effectivos. Por um lado a agricultura tem destruido os monumentos prehistoricos, a que chamam sepulturas antigas, internamente revestidas de grandes penedos, e por outro lado o oceano tem ido conquistando n’estes ultimos quinze seculos uma enorme zona de terreno.
Veja-se a descripção que Silva Lopes dá das opulentas ruinas de Budens na Chorographia do Algarve e veja-se na pasta encadernada das plantas e desenhos dos meus descobrimentos, existentes no museu archeologico do Algarve, a planta das ruinas que puz á vista junto á Bôca do Rio, onde ainda achei inteiros e sem a minima falha alguns preciosos pavimentos de mosaico de tão primoroso lavor, como os mais perfeitos de quantos puz á vista nas celebres ruinas de Ossonoba quando descobri a verdadeira séde e deixei patente uma parte importante d’aquella tão nomeada cidade de origem preromana.
O pouco tempo de que podia dispôr, sendo-me quasi inteiramente absorvido nas explorações tão reclamadas pelas nobilissimas ruinas da grande povoação da Bôca do Rio, não chegou para comprehender o descobrimento das estações prehistoricas já sobremaneira apparentemente desfiguradas; o que ainda assim não me impediria o seu reconhecimento, querendo guiar-me por uns caracteristicos de que já tinha tomado nota, a partir do Serro das Alfarrobeiras, ao sul, no rumo de noroeste, sobre o flanco direito do rio de Almádena, e ainda sobre a margem opposta, onde tantos vestigios neolithicos guarnecem o antigo leito d’esse rio, hoje transformado em vistosos arrozaes; pois para se pôr por obra uma exploração sufficientemente desenvolvida desde a ponta do Cabo de S. Vicente até á bahia de Lagos, seria mister o triplo do tempo em que fui obrigado a fazer o incompleto reconhecimento geral das antiguidades de toda esta provincia.
Para deixar representada a aldeia de Budens nos tempos prehistoricos, figuro sob o n.º 1 na estampa III uma enxó de schisto amphibolico, de forma achatada, formando angulos rectos em quatro arestas e o córte pela convergencia de duas facetas desiguais. Mede 0m,083 de comprimento, 0m,044 de largura e 0m,018 de espessura. Comprei-a na propria aldeia de Budens, onde foi achada. Está depositada no museu.»

Areias / Budens (Vol. II p. 313)

«Na mesma estampa III com o n.º 2 represento um pequeno machado de rocha quartzosa mui perfeito, que juntamente com outro tinha sido achado no sitio das Areias, perto da aldeia de Budens, em propriedade do sr. Joaquim Leal, por quem me foram offerecidos. Tem o córte produzido pelo desengrossamento de duas faceias convergentes. Mede 0m,073 de comprimento, 0m,040 de largura e 0m,025 de espessura. Está depositado no museu.»

Sellão Frio / Budens (Vol. II p. 314)

«N’este sitio e distante uma legua da igreja de Budens têem sido achados alguns machados de pedra em propriedade de Bernardino Baptista, residente na proxima freguesia da Luz. Foi este lavrador que me offereceu o de diorite negra, que figuro na estampa III sob o n.º 4. Tem o gume formado por desengrossamento decrescente, e com uma falha proveniente do trabalho. Mede 0m,127 de comprimento, 0m,050 de largura e 0m,040 de espessura. Está depositado no museu.»

Curraes / Budens (Vol. II p. 314)

«Fica este sitio uns 400 metros a nordeste de Barão de S. Miguel. Varios homens do campo affirmam ser frequente o apparecimento de machados de pedra n’aquelles terrenos e que algumas pessoas os guardam com a idéa de livrarem a sua casa da quéda de raios. Alli comprei a um camponez o perfeito machado com o gume muito arqueado e produzido por duas largas facetas, que figuro na estampa III com o n.º 3. Tem 0m,088 de comprimento, 0m,051 e 0m,031 de espessura. Tenho-o depositado no museu.»

VEIGA, E. da (1887) – Antiguidades Monumentaes do Algarve - Tempos Prehistoricosvol. II. Lisboa: Imprensa Nacional, pp. 311-314.




Recentes prospecções no Concelho de Vila do Bispo têm resultado na identificação de mais alguns artefactos (neo)líticos, alguns dos quais produzidos pela técnica da 'pedra polida', designadamente instrumentos como machados, enxós, dormentes e moventes de mós manuais, percutores, bigornas, entre outros:

Martinhal | centro oleiro romano | Sagres



ESagres/Vila do Bispo, nas arribas da praia do Martinhal, também conhecida localmente por Murtinhal, encontra-se identificado um importante centro oleiro romano, edificado em meados do séc. III. Trata-se de um enorme edifício de planta rectangular que integra uma cisterna e um forno. Mais perto da frente marítima foram assinalados mais nove fornos, todos destinados à produção de ânforas - Almagro 50, Almagro 51C e Almagro 51A-B. Além da produção cerâmica, o complexo industrial também foi vocacionado para a produção de preparados piscícolas, situação documentada por cetárias.
Este arqueossítio romano já se encontra há muito conhecido, designadamente no Vol. V das Antiguidades Monumentaes do Algarve - tempos historicos, de Sebastião Philipes Martins Estacio da Veiga (O Archeologo Português, Vol. XV, Lisboa: Museu Ethnographico Português, pp. 210-211.).
Nos cénicos ilhéus do Martinhal, situados em frente à praia, também foram registados vestígios de cetárias de preparados de peixe.
As boas condições naturais da enseada do Martinhal, protegida dos ventos de Oeste e Sudoeste pela ponta da Baleeira, terão, certamente, sido propícias à implantação de um pequeno porto de abrigo – fundeadouro e varadouro.
O conjunto estrutural e artefactual do complexo romano do Martinhal remete-nos para o século III-V d.C. A par destes vestígios, naquela área  também se regista cerâmica manual pré-histórica e alguma indústria lítica, documentando um habitat do Neolítico.

Segue-se o excerto das referências de Estacio da Veiga dedicadas a este sítio:

«Ao  lado de leste da ponta de Sagres está o ilhéo da Baleeira com muitos vestigios de construcções romanas arrasadas e numerosos fragmentos de louças. Não houve ali excavações. Occorre que possa ter sido logar destinado a fundições.
Toda a praia do Murtinhal, outrora defendida pela famosa fortaleza da Baleeira, hoje condemnada ao abandono, está cheia de construcções romanas. No flanco esquerdo da enseada estão á vista notaveis restos de edificios destruidos. No córte propinquo ao mar mostra ali o terreno camadas de entulho, mescladas de numerosos fragmentos de louças, e cinzeiros de uma espessura que varia desde 0m,50 até dois metros. São abundantes os pedaços de material de construcção de barro cozido, principalmente de tegulas, que cobrem todo o campo agricultado. Um d’aquelles edificios está ainda bem conservado, não obstante estar quasi todo soterrado. Nas suas duas paredes lateraes deixa perceber um começo de abobada semicylindrica, que parece ter-lhe servido de cobertura. É possível que tivesse sido uma cisterna. Mede internamente de comprimento 7m,75, e de largura 6m,20, tendo a sua entrada para SSO., fronteira á fortaleza destruida, e o fundo para NNE. A construcção e o material de argilla d’este edificio são romanos.
A pouca distancia se acham visiveis restos de outros edificios arrasados, muitos pedaços de tegulas e de louças grosseiras, sendo abundantes as extremidades ponteagudas das amphoras. O meu antigo correspondente e amigo Francisco Xavier de Paiva me communicou, em 12 de Fevereiro de 1874, ter ali visto ruinas de banhos e achado um fragmento de louça vermelha com a figura da deusa Isis em relevo dentro de uma cercadura, e que entre a Baleeira e o Zavial se acharam pedaços de dois caixões de chumbo, que foram vendidos em Lagos.
É mui provavel que os edificios do Murtinhal representem uma fabrica de material de construcção de barro cozido e ao mesmo tempo uma prospera colonia agricola.
Seria muito importante a exploração d’aquellas ruinas.»

VEIGA, Sebastião Estacio da (1910) – Antiguidades Monumentaes do Algarve. Cap. V. Tempos Históricos. O Archeologo Português, Vol. XV, Lisboa: Museu Ethnographico Português, pp. 210-211.

«O sítio romano do Martinhal constitui hoje um dos maiores centros oleiros conhecidos da província romana da Lusitânia. Este conhecimento decorre de várias campanhas de escavação efectuadas nos últimos 20 anos e, sobretudo, pelo aparecimento de múltiplas estruturas e fornos que a abrasão marítima e o consequente recuo da linha de costa todos os anos põem a descoberto. Os 10 fornos até hoje identificados – um de cerâmica de construção e 9 de produção de ânforas – não correspondem, certamente, senão a parte da totalidade das estruturas de combustão existentes no local.
Com efeito, já em 1877, Estácio da Veiga, que é quem pela primeira vez faz referência à importância arqueológica do sítio, constata uma enorme abundância de fragmentos cerâmicos na praia do Martinhal, para além de se referir a uma cisterna e a um provável “edifício de banhos” (Veiga 1910: 211).
Em 1971 Fernando de Almeida, G. Zbyszewski e O.V. Ferreira (1971: 157, 159) especificam, claramente, que este sítio seria um centro oleiro, assinalando dois fornos em Sagres, sendo, pelo menos um, no Martinhal ou Murtinhal. Já dois anos antes Saavedra Machado (1969: 345) se referia a restos de mosaicos encontrados no sítio.
Em 1971, Maria Luísa Santos visitando o sítio e baseada em notícias anteriores, sobretudo do seu bisavô Estácio da Veiga, confirma aquelas informações, apresentando uma planta esquemática e fotografias das estruturas da cisterna que assomavam à superfície. A partir de então multiplicam-se as referências ao sítio mas sem acrescentar nada de significativo às informações dadas nas notícias citadas.
O sítio passa a ser conhecido com algum detalhe a partir de 1987, quando, na sequência do aparecimento de algumas estruturas na arriba a Este da praia do Martinhal, é efectuada uma intervenção de emergência coordenada por Carlos Tavares da Silva e J. Neville Ashworth. Os trabalhos prosseguirão no ano seguinte de novo com a coordenação do primeiro daqueles arqueólogos e ainda de Virgílio Hipólito Correia e Nicholas Whitehead. Estas duas campanhas dariam lugar a um artigo onde foi abordada a produção de ânforas do sítio, uma vez que os trabalhos incidiram fundamentalmente na arriba onde assomavam alguns fornos, tendo sido escavados dois deles, outro apenas parcialmente e um quarto apenas identificado (Silva, Soares e Correia, 1990). No referido artigo caracterizam-se relativamente bem as características das produções anfóricas e das estruturas a elas associadas (ibidem).
Em 1989, nova intervenção, desta vez coordenada por Nicholas Whitehead e Teresa Júdice Gamito, procurou estender a escavação a outras áreas da estação, para além de prosseguir com os trabalhos junto à arriba, na zona dos fornos. Assim, foram efectuadas várias sondagens distribuídas pelo sítio arqueológico, nomeadamente junto à cisterna, com vista a aprofundar o conhecimento do sítio (Bernardes, 2008).
Em 1990, aquele arqueólogo inglês dirige uma campanha de trabalhos destinada exclusivamente a estudar os materiais exumados durante as campanhas anteriores (Whitehead, 1991). As informações recolhidas no decorrer dos 3 anos de escavações e do estudo do espólio respectivo, dariam lugar a um nunca acabado mas ainda assim bastante completo estudo monográfico do sítio (Whitehead & Gamito, s.d.).
Em 2006, como de novo estivessem a aparecer algumas estruturas na arriba, a C. M. de Vila do Bispo manifestou interesse em apoiar uma intervenção no local, pelo que contactou o IPA que, por sua vez, contactou a Universidade do Algarve que acabaria por levar a cabo mais uma intervenção de emergência no sítio, que ocorreu entre 17 de Julho e 12 de Agosto de 2006, e foi coordenada pelo autor destas linhas.»

BERNARDES, João Pedro (2008) – O Centro Oleiro do Martinhal. Xelb, 8, (Actas do 5.º Encontro de Arqueologia do Algarve, Silves, 25 a 27 de Outubro de 2007), pp.191-212.


BERNARDES, João Pedro, MORAIS, Rui, PINTO, Inês Vaz, DIAS, Rita (2013) – A olaria baixo-imperial do Martinhal, Sagres (Portugal). In: D. Bernal, L.C. Juan, M. Bustamante, J.J. Díaz y A.M. Sáez (Editores Científicos). Tallers y Focos de Producción Alfarera en Hispania. I Congreso Internacional de la SECAH Ex officina hispana, Cádiz (2011), pp. 317-329.

Menires da Pedra Escorregadia – Cascalhar | Vila do Bispo

A "Pedra Escorregadia", documentada nas cinco primeiras imagens que se seguem, é um  menir com 2 m de maior comprimento, situado a menos de 1 km a sudoeste de Vila do Bispo, a nascente (à esquerda) do km 29.2 da antiga EN 268, no topo de um pequeno cerro com 97 metros de altura, parcialmente cortado a poente pela estrada nova.
Desta pedra, que terá originado o topónimo local, é possível desfrutar de uma panorâmica paisagem que se estende a norte até ao casario de Vila do Bispo, permitindo a directa intervisibilidade com outras áreas envolventes 'povoadas' por menires: Amantes, Camacho, Santo António, Milrei, Padrão...
Interessantes alguns ecos de tradição oral local que associam esta pedra ('Escorregadia') a um sub-actual ritual 'pagão', relacionado com cultos de amor e fecundidade!
O conjunto de monólitos da Pedra Escorregadia – Cascalhar foi talhado/afeiçoado sobre blocos de calcário regional de cor branca, apresentando formas subcilíndricas ou troncocónicas. O maior, a própria "Pedra Escorregadia", apresenta uma faixa vertical em relevo, constituída por 3 elipses. Alguns metros mais abaixo, na encosta sul do cerro, surge outro interessante monólito, um fragmentário topo de menir que também apresenta decorações gravadas – elipses/linhas ondulantes.
Partindo do cerro da Pedra Escorregadia, onde também existe uma sepultura colectiva de tipo "cista" (parcialmente escavada e com enterramentos enquadráveis em cronologias do Neolítico Final – IV Milénio a.C.), inicia-se um roteiro megalítico que permite observar, além de diversos apontamentos paisagísticos e naturais, uma série de menires hoje tombados, dispersos entre a Pedra Escorregadia, a Casa do Francêso Monte dos Amantes e o Cerro do Camacho
O roteiro original - À descoberta dos menires | Roteiro do Monte dos Amantes - promoveu a justa valorização de um interessante conjunto megalítico classificado como Imóvel de Interesse Público. Passada mais de uma década, impõe-se a sua actualização/renovação, tratando-se de uma tarefa actualmente em marcha por iniciativa da Junta de Freguesia de Vila do Bispo/Raposeira, com o apoio técnico do arqueólogo municipal. Entretanto e neste sentido, algumas acções de divulgação e sensibilização têm sido partilhadas pelo projecto Iluminados Passeios Nocturnos