Feliz quem tem uma PEDRA em SAGRES

Palavras-chave | Keywords

"Boca do Rio" "Ermida da Guadalupe" "Farol de São Vicente" "Fauna e Flora" "Fortaleza de Sagres" "Gentes & Paisagens" "Gentes de Vila do Bispo" "Geologia e Paleontologia" "História do Mês" "Martinhal" "Menires de Vila do Bispo" "Paisagens de Vila do Bispo" "Tales from the Past" "Vale de Boi" 3D Abrigo Antiguidade Clássica Apicultura ArqueoAstronomia Arqueologia Experimental Arqueologia Industrial Arqueologia Pública Arqueologia Subaquática Arquitectura Arte Rupestre Artefactos Baleeira Barão de São Miguel Base de Dados Bibliografia Budens Burgau CIVB-Centro de Interpretação de Vila do Bispo Calcolítico Carta Arqueológica de Vila do Bispo Cartografia Cetárias Cista Complexo industrial Concheiro Conservação e Restauro Descobrimentos Divulgação EPAC Educação Patrimonial Escolas & Paisagens de Vila do Bispo Espeleo-Arqueologia Estacio da Veiga Estela-menir Etnografia Exposição Figueira Filme Forte Fotografia Geographia Grutas Homem de Neandertal Idade Contemporânea Idade Moderna Idade Média Idade do Bronze Idade do Ferro Iluminados Passeios Nocturnos Ingrina Islâmico Landscape Medieval-Cristão Megalitismo Mesolítico Mirense Moinhos Moçarabe Museologia NIA-VB Navegação Necrópole Neo-Calcolítico Neolítico Neolítico Antigo Paleolítico Património Edificado Património natural Património partilhado Pedralva Pesca Povoado Proto-história Pré-história RMA Raposeira Recinto Megalítico/Cromeleque Referências Romano Roteiro Sagrado Sagres Salema Santos Rocha Seascape São Vicente Toponímia Vila do Bispo Villa Romana arte biodiversidade marisqueio menires mitos & lendas
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Artefactos Neolíticos em Vila do Bispo


Sebastião Philipes Estácio da Veiga, no volume II das suas Antiguidades Monumentaes do Algarve - Tempos Prehistoricos, enumera uma série de referências a achados isolados integráveis no "neolithico" de Vila do Bispo, designando-os como "instrumentos neolithicos". 
Seguem-se as suas referências:

Instrumentos neolithicos isolados (Vol. II p. 311-314)

Villa do Bispo (Vol. II p. 311)

«Machado de diorite, totalmente desengrossado pelo attrito até o córte, em que ha estragos provenientes do trabalho. Tem de comprimento 0m,140, de largura 0m,058, e de espessura 0m,033. Foi ha muitos annos achado em excavação feita n’uma rua da villa e por mim comprado em 1878 a um trabalhador alli mesmo residente. Vae figurado na estampa II sob o n.º 1.
Com o antecedente machado deixei depositado no museu um ellipsoide de diorite (?), formado por dois segmentos de esfera unidos pelos bordos, deixando aresta saliente. No maior diametro mede 0m,050, no menor 0m,046 e na espessura 0m,034. É um lustroso calhau, que parece ter já sido util, servindo de polidor. Era companheiro do machado que fica descripto, e por isso, encostado a um fiador tão idoneo, parece poder ser considerado como instrumento que teve algum prestimo na ultima idade da pedra.»

Sellanitos / Rapozeira (Vol. II p. 311)

«Machado de secção transversal elliptica, totalmente desengrossado, com o córte em arcatura, assaz obliterado. Foi achado com pedaços de louça prehistorica em terra lavrada, deixando presumir que tenha pertencido a um monumento destruido. Mede 0m,090 de comprimento, 0m,046 de largura e 0m,027 de espessura. Comprei-o no proprio logar. É figurado na estampa II sob o n.º 4.»

Catalão / Sagres (Vol. II p. 311-312)

«Machado de schisto com desengrossamento geral, e alguns estragos, tanto no córte como na extremidade inferior. Mede 0m,097 de comprimento 0m,046 de largura e 0m,025 de espessura. Comprei-o no proprio sitio do Catalão, onde me informaram de terem apparecido outros muitos. Está depositado no museu, e vae figurado na estampa II com o n.º 2.»

Cabo de São Vicente / Sagres (Vol. II p. 312)

«Pequeno machado, de configuração similhante á do antecedente, com o córte abatido. Tem de comprimento 0m,090, de largura 0m,045 e de espessura 0m,029. Comprei-o a um camponez, que me afiançou tel-o achado na fenda de uma grande rocha, já perto do mar, onde ha muitos penedos de enorme grandeza, accrescentando que outras muitas pedras de raio se têem por alli achado. Está depositado no museu e é figurado na estampa II com o n.º 3.
Este machado fez-me lembrar os cumulos de tres a quatro pedras, que Estrabão refere ter havido no Cabo de S. Vicente, e que o barão de Bonstteten entende terem sido antigos dolmens construidos n’aquella extremidade da terra. É mui provavel haver pertencido a algum monumento actualmente destruido, ou talvez já precipitado no mar; pois que mui visivelmente toda aquella ponta de terra, continuamente batida pelas aguas do oceano, tem soffrido mui sensiveis deslocamentos. Se os monumentos, a que se refere Estrabão, estavam mui propinquos ao mar, não foi outra, a meu ver, a causa do seu desapparecimento.»

Budens (Vol. II p. 312-313)

«A aldeia de Budens está situada entre o extincto rio de Almádena e a ribeira da Zorreta. Todo esse tracto de terra fertil, comprehendido entre duas correntes de agua, foi utilizado por todas as nacionalidades prehistoricas e historicas que no Algarve ficaram caracterisadas. Houve alli notabilissimos centros de população. Só o riquissimo terreno de Budens, para ser explorado, como convinha, não exigiria menos de seis a oito mezes de trabalho activo com quarenta operarios effectivos. Por um lado a agricultura tem destruido os monumentos prehistoricos, a que chamam sepulturas antigas, internamente revestidas de grandes penedos, e por outro lado o oceano tem ido conquistando n’estes ultimos quinze seculos uma enorme zona de terreno.
Veja-se a descripção que Silva Lopes dá das opulentas ruinas de Budens na Chorographia do Algarve e veja-se na pasta encadernada das plantas e desenhos dos meus descobrimentos, existentes no museu archeologico do Algarve, a planta das ruinas que puz á vista junto á Bôca do Rio, onde ainda achei inteiros e sem a minima falha alguns preciosos pavimentos de mosaico de tão primoroso lavor, como os mais perfeitos de quantos puz á vista nas celebres ruinas de Ossonoba quando descobri a verdadeira séde e deixei patente uma parte importante d’aquella tão nomeada cidade de origem preromana.
O pouco tempo de que podia dispôr, sendo-me quasi inteiramente absorvido nas explorações tão reclamadas pelas nobilissimas ruinas da grande povoação da Bôca do Rio, não chegou para comprehender o descobrimento das estações prehistoricas já sobremaneira apparentemente desfiguradas; o que ainda assim não me impediria o seu reconhecimento, querendo guiar-me por uns caracteristicos de que já tinha tomado nota, a partir do Serro das Alfarrobeiras, ao sul, no rumo de noroeste, sobre o flanco direito do rio de Almádena, e ainda sobre a margem opposta, onde tantos vestigios neolithicos guarnecem o antigo leito d’esse rio, hoje transformado em vistosos arrozaes; pois para se pôr por obra uma exploração sufficientemente desenvolvida desde a ponta do Cabo de S. Vicente até á bahia de Lagos, seria mister o triplo do tempo em que fui obrigado a fazer o incompleto reconhecimento geral das antiguidades de toda esta provincia.
Para deixar representada a aldeia de Budens nos tempos prehistoricos, figuro sob o n.º 1 na estampa III uma enxó de schisto amphibolico, de forma achatada, formando angulos rectos em quatro arestas e o córte pela convergencia de duas facetas desiguais. Mede 0m,083 de comprimento, 0m,044 de largura e 0m,018 de espessura. Comprei-a na propria aldeia de Budens, onde foi achada. Está depositada no museu.»

Areias / Budens (Vol. II p. 313)

«Na mesma estampa III com o n.º 2 represento um pequeno machado de rocha quartzosa mui perfeito, que juntamente com outro tinha sido achado no sitio das Areias, perto da aldeia de Budens, em propriedade do sr. Joaquim Leal, por quem me foram offerecidos. Tem o córte produzido pelo desengrossamento de duas faceias convergentes. Mede 0m,073 de comprimento, 0m,040 de largura e 0m,025 de espessura. Está depositado no museu.»

Sellão Frio / Budens (Vol. II p. 314)

«N’este sitio e distante uma legua da igreja de Budens têem sido achados alguns machados de pedra em propriedade de Bernardino Baptista, residente na proxima freguesia da Luz. Foi este lavrador que me offereceu o de diorite negra, que figuro na estampa III sob o n.º 4. Tem o gume formado por desengrossamento decrescente, e com uma falha proveniente do trabalho. Mede 0m,127 de comprimento, 0m,050 de largura e 0m,040 de espessura. Está depositado no museu.»

Curraes / Budens (Vol. II p. 314)

«Fica este sitio uns 400 metros a nordeste de Barão de S. Miguel. Varios homens do campo affirmam ser frequente o apparecimento de machados de pedra n’aquelles terrenos e que algumas pessoas os guardam com a idéa de livrarem a sua casa da quéda de raios. Alli comprei a um camponez o perfeito machado com o gume muito arqueado e produzido por duas largas facetas, que figuro na estampa III com o n.º 3. Tem 0m,088 de comprimento, 0m,051 e 0m,031 de espessura. Tenho-o depositado no museu.»

VEIGA, E. da (1887) – Antiguidades Monumentaes do Algarve - Tempos Prehistoricos, vol. II. Lisboa: Imprensa Nacional, pp. 311-314.




Recentes prospecções no Concelho de Vila do Bispo têm resultado na identificação de mais alguns artefactos (neo)líticos, alguns dos quais produzidos pela técnica da 'pedra polida', designadamente instrumentos como machados, enxós, dormentes e moventes de mós manuais, percutores, bigornas, entre outros:

Carta Arqueológica de Vila do Bispo

1.ª Fase | Abril-Dezembro de 2014
Promotor | Câmara Municipal de Vila do Bispo
Arqueólogo Responsável | Ricardo Soares (CMVB)

Apresentação, objectivos & metodologia

O projecto que aqui se apresenta, denominado de “Carta Arqueológica do Concelho de Vila do Bispo”, encontra-se dividido em 4 fases, correspondentes aos anos previstos para a sua concretização e de acordo com os meios humanos disponíveis.
Para o efeito, o arqueólogo da Câmara Municipal de Vila do Bispo, Ricardo Soares, submeteu à respectiva autoridade tutelar (Direção Regional de Cultura do Algarve) um Pedido de Autorização de Trabalhos Arqueológicos (PATA), deferido em ofício datado de 02 de Maio de 2014 (Processo n.º DR/2014/08-15/16/PATA/2964 - C.S:121711), relativo à 1.ª Fase do projecto, a executar entre Abril e Dezembro de 2014.
Em Janeiro de 2015 encontra-se prevista a continuidade do projecto, na sua 2.ª Fase (Janeiro-Dezembro de 2015), período durante o qual será entregue, à Direção Geral do Património Cultural, o requerimento de renovação do PATA e o Relatório relativo aos trabalhos de 2014, em conformidade com o prazo estipulado no Artigo 7.º n.º 1, do Decreto-Lei n.º 270/99 de 15 de Julho.
Para além dos avanços científicos, fundamentais para o conhecimento e valorização do património cultural do Concelho de Vila do Bispo (arqueológico, histórico e etnográfico), também se intenta, com este projecto, ampliar a base de dados relativa ao património arqueológico concelhio, de forma a disponibilizar um instrumento essencial para uma boa gestão do território, cuja eficácia depende, necessariamente, da localização precisa dos vestígios, da identificação, caracterização e valorização de sítios arqueológicos com maior potencial turístico-cultural, e da consolidação de informação básica, sobre a qual se podem e devem alicerçar discursos de âmbito informativo e pedagógico, dirigidos, nomeadamente, à população escolar do Concelho e a todos os interessados na sua história regional.
Concluído o projecto, a publicação dos seu resultados encontra-se prevista sobre a forma de Carta Arqueológica, com edição da própria autarquia, segundo um modelo de inédita leitura integrada de todos os dados ao momento coligidos, propondo-se à comunidade científica e, muito particularmente, à comunidade loco-regional, uma completa e sequencial narrativa sobre a ocupação humana deste território ao longo de todos os tempos, de forma transversal e acessível aos diversos públicos. Até lá, de modo parcelar e sem prejuízo da publicação final, é nossa intenção partilhar informação relevante em apresentações públicas, locais e regionais, congressos nacionais e internacionais, artigos em revistas científicas e no sítio online criado para o efeito – Vila do Bispo Arqueológica.
Ao momento, já se encontra desenvolvida uma base de dados em software FileMaker, na qual foram incorporados todos os dados arqueológicos entretanto coligidos e relativos ao Concelho de Vila do Bispo, designadamente disponíveis na Base de Dados da DGPC (Endovélico), em bibliografia de âmbito regional, em relatórios de trabalhos arqueológicos realizados no Concelho e, sobretudo, em levantamentos arqueológicos precedentes: Antiguidades Monumentaes do Algarve (Estacio da Veiga, 1886; 1887; 1889; 1891; 1910); Levantamento Arqueológico do Algarve - Concelho de Vila do Bispo (Mário Varela Gomes e Carlos Tavares da Silva, 1987); Menires de Vila do Bispo - Inventário/Cartografia (João Velhinho, Associação de Defesa do Património Histórico e Arqueológico de Vila do Bispo, 2005); Levantamento Patrimonial de Vila do Bispo (ERA-Arqueologia, 2009).
A criação de uma base de dados de raiz tem permitido detectar imprecisões ou duplicações de informação, possibilitando buscas rápidas e leituras fáceis – uma ferramenta fundamental para uma melhor compreensão da sequência e ritmos de ocupação neste território, munindo o arqueólogo de diversos conhecimentos de base para os trabalhos de campo.
A par destas fontes fundamentais, também tem sido dada privilegiada atenção ao registo de imprescindíveis testemunhos orais de uma população com potencial informativo sobre o território: pastores, agricultores, caçadores, pescadores, marisqueiros, guardas da natureza e antigos guarda-rios, enfim... gentes da terra.
O projecto aqui apresentado poderá diferenciar-se dos já referidos, e de forma inédita, por se tratar de uma investigação produzida no seio da própria autarquia, visando um retorno social e uma aplicação prática dos resultados, ultrapassando a lógica de pontuais empreitadas, desprovidas de uma merecida continuidade.
Além do conhecimento produzido e da sua instrumentalização, enquanto potencial ferramenta municipal, o projecto ambiciona desenvolver dinâmicas de envolvimento, estimulo e alcance sócio-cultural, com possível impacto na economia loco-regional.
Posto isto, a par da continuidade da extensa tarefa de preenchimento da referida base de dados, e reunidas as ferramentas necessárias, torna-se impreterível a aventura no terreno.
Nesse sentido, e nesta 1.ª Fase, compreendida entre Abril e Dezembro do presente ano, tem sido dada prioridade à relocalização, reavaliação, delimitação, registo e descrição de sítios e monumentos em vias de classificação, designadamente os conjuntos meníricos de Milrei e do Padrão (Raposeira, Vila do Bispo), com prospecções sistemáticas nas suas áreas envolventes, que, pelo facto de constituírem realidades contíguas, de difícil individualização, podem ser tratadas como uma unidade geográfica, extensível até às zonas costeiras, a sul, alcançando-se, assim, outras áreas de reconhecido potencial arqueológico.
Esta estratégia acaba por circunscrever uma área de actuação prioritária no território da Freguesia da Raposeira, recentemente integrada na União de Freguesias da Vila do Bispo-Raposeira, ainda que, tendo em conta a globalidade do projecto, se assume uma total liberdade de actuação em toda a área do Concelho de Vila do Bispo.
O projecto conta, à partida, apenas com o arqueólogo titular. Porém, os trabalhos de campo e de laboratório poderão receber outros contributos, designadamente de equipas de alunos de arqueologia da Universidade do Algarve, ao abrigo de protocolos de cooperação; de alunos de escolas loco-regionais, numa perspectiva de educação patrimonial; de equipas do Centro de Investigação Arqueológica de Vila do Bispo, projecto paralelo que pretende desenvolver iniciativas de integração da comunidade loco-regional, numa perspectiva de sensibilização cultural e patrimonial e de arqueologia pública/social; de equipas de espeleólogos do Projecto ProPEA (Projeto Património Espeleológico do Algarve) e do CEAE-LPN (Centro de Estudos e Actividades Especiais da Liga para a Protecção da Natureza), organismo integrado pelo próprio signatário do projecto e com larga experiência em acções de prospecção espeleo-arqueológica.
Metodologicamente e no que se refere aos materiais identificados, estes são objecto de registo fotográfico, in loco, e de georeferenciação com GPS, sendo recolhidos determinados exemplares, segundo pré-definidos critérios de integridade, conservação e potencial informativo e expositivo.
Os sítios e monumentos, além de uma sistemática georeferenciação e do convencional registo fotográfico, são alvo de fotografias de enquadramento paisagístico e, nos casos em que se verifiquem indícios de aspectos decorativos (frequentes nos menires regionais), também merecem “visitas” nocturnas para uma melhor observação e registo fotográfico com técnicas dirigidas de iluminação rasante.
Os materiais recolhidos, depois de inventariados e integrados na base de dados, são tratados, marcados, descritos e pertinentemente documentados em registo fotográfico de estúdio e/ou desenhados.
A georeferenciação de realidades arqueológicas, históricas e etnográficas, é obtida com recurso a um aparelho GPS Garmin Dakota20, programado no Datum ED50 (European Datum 1950), exportado segundo um sistema de coordenadas UTM. As coordenadas registadas são descarregadas e organizadas no software Garmin BaseCamp e no Google Earth, enquanto ferramentas básicas de leitura dos dados e de planificação dos trabalhos de campo. A base de dados cartográfica e os necessários layouts cartográficos serão produzidos em colaboração com o Departamento de Informação Geográfica (SIG) da Autarquia de Vila do Bispo, permitindo uma futura integração no PDM do Concelho.
Ainda no que respeita ao registo fotográfico, realiza-se com uma câmara Nikon D90, com uma lente versátil (18-105mm f/3.5-5.6G ED VR), para os registos de campo, e com uma lente macro (55mm f/2.8), para o registo de materiais em estúdio.
A metodologia de prospecção traçada para a 1.ª Fase do projecto, tendo em conta os objectivos prioritários já enunciados, as limitações de tempo e o facto de os trabalhos contarem, à partida, apenas com um técnico responsável, que acumula outras funções no âmbito da arqueologia municipal, tem sido de início muito selectiva e consequente das acções de relocalização de realidades arqueológicas já conhecidas, pelo que as áreas alvo a prospectar são tendencialmente planificadas “passo a passo”, em percursos abrangentes entre os arqueossítios pré-seleccionados.
Claro que, nesta abordagem, além da relocalização, confirmação, reavaliação, delimitação e melhor compreensão de realidades arqueológicas conhecidas, também se procura, inevitavelmente, identificar expectáveis sítios inéditos – e as descobertas têm sido profícuas!
Atendendo às suas especificidades geomorfológicas, as áreas litorais, sobretudo da costa sul do Concelho, serão alvo de prospecções com atenção espeleológica, pontualmente realizadas com o apoio de equipas especializadas. Existem algumas cavidades cársicas identificadas no Concelho que ainda não foram objecto da devida atenção de uma investigação dirigida e que, muito naturalmente, tendo em conta os contextos culturais envolventes, se revestem de grande potencial arqueológico.
Toda a experiência adquirida pelo signatário nas referidas cartas arqueológicas da Arrábida, sobretudo na área da plataforma de abrasão do Cabo Espichel, revelam-se agora de grande utilidade no território de Sagres/São Vicente, por se tratarem de paisagens muito semelhantes nas suas características ambientais, geológicas e, de certa forma, arqueológicas.
Todavia, por muito que se pense conhecer um determinado território, o seu verdadeiro entendimento provém de uma experiência cumulativa, de um permanente dialogo entre o arqueólogo e a sua área de estudo, por exemplo: as condições de visibilidade dos solos alternam sazonalmente ao longo do ano e variam indeterminadamente ao longo dos anos; os terrenos lavrados, além de limpos de vegetação, são revolvidos, expondo eventuais vestígios arqueológicos, enquanto, depois de semeados, tornam-se “proibidos”; as áreas afectadas por incêndios, depois de “lavadas” pelas chuvas, também facilitam a actuação do prospector; os terrenos perturbados pela acção dos javalis são fossados, ao ponto de permitirem uma excepcional progressão na vegetação densa e a prospectabilidade em novas clareiras; os sítios arqueológicos em zonas costeiras, como será o caso paradigmático da estação romana da Boca do Rio (Budens, Vila do Bispo), são dramaticamente afectados pelo avanço das marés e pela erosão marinha, para não falar dos recorrentes atentados causados pela ilegal actividade de detectoristas de metais!
Todas estas condicionantes ou oportunidades, naturais ou antrópicas, sobretudo agrícolas e sazonais, obrigam o arqueólogo a estudar as dinâmicas e ritmos dos terrenos, exigindo pelo menos de 1 ano para serem minimamente registadas e entendidas. Estas dinâmicas vão, inevitavelmente, determinar as estratégias de prospecção pois, independentemente das áreas pré-determinadas numa ordem de prioridades, há que aproveitar as oportunidades de janelas de visibilidade no terreno, sobretudo em terrenos lavrados, ou aguardar por possibilidades de transitabilidade, respeitando os terrenos cultivados.
A região de Vila do Bispo era conhecida, até muito recentemente, como o “celeiro do Algarve”. Hoje, ainda que tendo perdido essa importância económica, as marcas são evidentes no impacto sobre sítios arqueológicos.
No caso dos menires, esse impacto é bastante evidente, sobretudo nos monólitos de menor dimensão. Encontram-se frequentemente fracturados e deslocados dos seus contextos de implantação original, em linhas de delimitação de propriedades ou em marouços, juntamente com outras pedras.
Em suma, a 1.ª Fase do projecto aqui apresentado, ainda que preliminar, será fundamental para, conforme expectável, se gerar uma dinâmica de investigação arqueológica que não se esgotará com a publicação dos resultados, dentro de 4/5 anos. O seu alcance poderá superar-se num irreversível projecto de continuidade, de relevante importância para um Concelho de grande riqueza, no que ao património arqueológico diz respeito, e que tem actualmente no turismo a sua principal actividade sócio-económica.


Como referido, a Base de Dados Endovélico, acessível no Portal do Arqueólogo da Direção-Geral do Património Cultural, constitui uma ferramenta indispensável à actividade arqueológica. Trata-se de uma base de dados de informação arqueológica, em parte disponível a qualquer interessado, com áreas de acesso reservado a profissionais. A sua utilização é facilitada por via de um motor de busca organizado segundo os seguintes itens:


A pesquisa por sítios arqueológicos inclui as informações sobre todos os vestígios de património arqueológico, resultantes de trabalhos de prevenção, salvaguarda, investigação e valorização patrimonial, desenvolvidos em Portugal Continental. A informação provém dos dados obtidos nos processos do arquivo histórico da arqueologia portuguesa e dos trabalhos de relocalização e identificação de novos sítios, realizados pelos serviços do estado. Encontram-se igualmente disponíveis, ainda que não de forma sistemática, as referências sobre vestígios arqueológicos em meio aquático, que consistem em achados na costa portuguesa, referências nacionais em águas internacionais e estrangeiras e referências tanto nacionais como internacionais em águas de países lusófonos. Os dados reflectem o estado actual dos conhecimentos e resultam da informação que é remetida diariamente ao Instituto, pelo que se encontra em permanente actualização. Os utilizadores registados têm acesso à localização geográfica dos vestígios arqueológicos disponibilizada em coordenadas geográficas no sistema WGS84 (World Geodetic System de 1984), usado mundialmente em cartografia e geodésica, nomeadamente nos aparelhos de GPS e na interface GoogleEarth do próprio portal.

O Concelho de Vila do Bispo conta ao momento (Outubro de 2014) com 248 sítios arqueológicos inventariados na Base de Dados Endovélico, correspondentes a todas as épocas, desde o Paleolítico até "ontem", e a diversas realidades, assinaladas tanto em ambiente terrestre, como em meio marinho. 

Martinhal | centro oleiro romano | Sagres



Em Sagres/Vila do Bispo, nas arribas da praia do Martinhal, também conhecida localmente por Murtinhal, encontra-se identificado um importante centro oleiro romano, edificado em meados do séc. III. Trata-se de um enorme edifício de planta rectangular que integra uma cisterna e um forno. Mais perto da frente marítima foram assinalados mais nove fornos, todos destinados à produção de ânforas - Almagro 50, Almagro 51C e Almagro 51A-B. Além da produção cerâmica, o complexo industrial também foi vocacionado para a produção de preparados piscícolas, situação documentada por cetárias.
Este arqueossítio romano já se encontra há muito conhecido, designadamente no Vol. V das Antiguidades Monumentaes do Algarve - tempos historicos, de Sebastião Philipes Martins Estacio da Veiga (O Archeologo Português, Vol. XV, Lisboa: Museu Ethnographico Português, pp. 210-211.).
Nos cénicos ilhéus do Martinhal, situados em frente à praia, também foram registados vestígios de cetárias de preparados de peixe.
As boas condições naturais da enseada do Martinhal, protegida dos ventos de Oeste e Sudoeste pela ponta da Baleeira, terão, certamente, sido propícias à implantação de um pequeno porto de abrigo – fundeadouro e varadouro.
O conjunto estrutural e artefactual do complexo romano do Martinhal remete-nos para o século III-V d.C. A par destes vestígios, naquela área  também se regista cerâmica manual pré-histórica e alguma indústria lítica, documentando um habitat do Neolítico.

Segue-se o excerto das referências de Estacio da Veiga dedicadas a este sítio:

«Ao  lado de leste da ponta de Sagres está o ilhéo da Baleeira com muitos vestigios de construcções romanas arrasadas e numerosos fragmentos de louças. Não houve ali excavações. Occorre que possa ter sido logar destinado a fundições.
Toda a praia do Murtinhal, outrora defendida pela famosa fortaleza da Baleeira, hoje condemnada ao abandono, está cheia de construcções romanas. No flanco esquerdo da enseada estão á vista notaveis restos de edificios destruidos. No córte propinquo ao mar mostra ali o terreno camadas de entulho, mescladas de numerosos fragmentos de louças, e cinzeiros de uma espessura que varia desde 0m,50 até dois metros. São abundantes os pedaços de material de construcção de barro cozido, principalmente de tegulas, que cobrem todo o campo agricultado. Um d’aquelles edificios está ainda bem conservado, não obstante estar quasi todo soterrado. Nas suas duas paredes lateraes deixa perceber um começo de abobada semicylindrica, que parece ter-lhe servido de cobertura. É possível que tivesse sido uma cisterna. Mede internamente de comprimento 7m,75, e de largura 6m,20, tendo a sua entrada para SSO., fronteira á fortaleza destruida, e o fundo para NNE. A construcção e o material de argilla d’este edificio são romanos.
A pouca distancia se acham visiveis restos de outros edificios arrasados, muitos pedaços de tegulas e de louças grosseiras, sendo abundantes as extremidades ponteagudas das amphoras. O meu antigo correspondente e amigo Francisco Xavier de Paiva me communicou, em 12 de Fevereiro de 1874, ter ali visto ruinas de banhos e achado um fragmento de louça vermelha com a figura da deusa Isis em relevo dentro de uma cercadura, e que entre a Baleeira e o Zavial se acharam pedaços de dois caixões de chumbo, que foram vendidos em Lagos.
É mui provavel que os edificios do Murtinhal representem uma fabrica de material de construcção de barro cozido e ao mesmo tempo uma prospera colonia agricola.
Seria muito importante a exploração d’aquellas ruinas.»

VEIGA, Sebastião Estacio da (1910) – Antiguidades Monumentaes do Algarve. Cap. V. Tempos Históricos. O Archeologo Português, Vol. XV, Lisboa: Museu Ethnographico Português, pp. 210-211.

«O sítio romano do Martinhal constitui hoje um dos maiores centros oleiros conhecidos da província romana da Lusitânia. Este conhecimento decorre de várias campanhas de escavação efectuadas nos últimos 20 anos e, sobretudo, pelo aparecimento de múltiplas estruturas e fornos que a abrasão marítima e o consequente recuo da linha de costa todos os anos põem a descoberto. Os 10 fornos até hoje identificados – um de cerâmica de construção e 9 de produção de ânforas – não correspondem, certamente, senão a parte da totalidade das estruturas de combustão existentes no local.
Com efeito, já em 1877, Estácio da Veiga, que é quem pela primeira vez faz referência à importância arqueológica do sítio, constata uma enorme abundância de fragmentos cerâmicos na praia do Martinhal, para além de se referir a uma cisterna e a um provável “edifício de banhos” (Veiga 1910: 211).
Em 1971 Fernando de Almeida, G. Zbyszewski e O.V. Ferreira (1971: 157, 159) especificam, claramente, que este sítio seria um centro oleiro, assinalando dois fornos em Sagres, sendo, pelo menos um, no Martinhal ou Murtinhal. Já dois anos antes Saavedra Machado (1969: 345) se referia a restos de mosaicos encontrados no sítio.
Em 1971, Maria Luísa Santos visitando o sítio e baseada em notícias anteriores, sobretudo do seu bisavô Estácio da Veiga, confirma aquelas informações, apresentando uma planta esquemática e fotografias das estruturas da cisterna que assomavam à superfície. A partir de então multiplicam-se as referências ao sítio mas sem acrescentar nada de significativo às informações dadas nas notícias citadas.
O sítio passa a ser conhecido com algum detalhe a partir de 1987, quando, na sequência do aparecimento de algumas estruturas na arriba a Este da praia do Martinhal, é efectuada uma intervenção de emergência coordenada por Carlos Tavares da Silva e J. Neville Ashworth. Os trabalhos prosseguirão no ano seguinte de novo com a coordenação do primeiro daqueles arqueólogos e ainda de Virgílio Hipólito Correia e Nicholas Whitehead. Estas duas campanhas dariam lugar a um artigo onde foi abordada a produção de ânforas do sítio, uma vez que os trabalhos incidiram fundamentalmente na arriba onde assomavam alguns fornos, tendo sido escavados dois deles, outro apenas parcialmente e um quarto apenas identificado (Silva, Soares e Correia, 1990). No referido artigo caracterizam-se relativamente bem as características das produções anfóricas e das estruturas a elas associadas (ibidem).
Em 1989, nova intervenção, desta vez coordenada por Nicholas Whitehead e Teresa Júdice Gamito, procurou estender a escavação a outras áreas da estação, para além de prosseguir com os trabalhos junto à arriba, na zona dos fornos. Assim, foram efectuadas várias sondagens distribuídas pelo sítio arqueológico, nomeadamente junto à cisterna, com vista a aprofundar o conhecimento do sítio (Bernardes, 2008).
Em 1990, aquele arqueólogo inglês dirige uma campanha de trabalhos destinada exclusivamente a estudar os materiais exumados durante as campanhas anteriores (Whitehead, 1991). As informações recolhidas no decorrer dos 3 anos de escavações e do estudo do espólio respectivo, dariam lugar a um nunca acabado mas ainda assim bastante completo estudo monográfico do sítio (Whitehead & Gamito, s.d.).
Em 2006, como de novo estivessem a aparecer algumas estruturas na arriba, a C. M. de Vila do Bispo manifestou interesse em apoiar uma intervenção no local, pelo que contactou o IPA que, por sua vez, contactou a Universidade do Algarve que acabaria por levar a cabo mais uma intervenção de emergência no sítio, que ocorreu entre 17 de Julho e 12 de Agosto de 2006, e foi coordenada pelo autor destas linhas.»

BERNARDES, João Pedro (2008) – O Centro Oleiro do Martinhal. Xelb, 8, (Actas do 5.º Encontro de Arqueologia do Algarve, Silves, 25 a 27 de Outubro de 2007), pp.191-212.


BERNARDES, João Pedro, MORAIS, Rui, PINTO, Inês Vaz, DIAS, Rita (2013) – A olaria baixo-imperial do Martinhal, Sagres (Portugal). In: D. Bernal, L.C. Juan, M. Bustamante, J.J. Díaz y A.M. Sáez (Editores Científicos). Tallers y Focos de Producción Alfarera en Hispania. I Congreso Internacional de la SECAH Ex officina hispana, Cádiz (2011), pp. 317-329.

Projecto ProPEA | Vila do Bispo


«As características geomorfológicas de extensas áreas do Algarve revelam-se favoráveis à presença de formações cársicas, incluindo as cavidades naturais calcárias, de que se conhecem vários exemplos numa ampla faixa geográfica que se estende do extremo Barlavento ao Sotavento, englobando parte significativa destes territórios. A importância de conhecer as grutas do Algarve tem sido reiteradamente propalada por diferentes investigadores desde há mais de um século, sendo o interesse destas reconhecido em diferentes matérias do conhecimento, sobretudo a Geologia, Arqueologia, Paleontologia e Biologia. Apesar deste facto e da actuação no Algarve de diversas entidades relacionadas com a actividade espeleológica, poucos são os trabalhos publicados subordinados à pesquisa do meio subterrâneo natural no Algarve, permanecendo este, em boa parte, escassamente conhecido. Tal situação conduz a uma vulnerabilidade acrescida do referido património em face da pressão humana, atendendo a que, por desconhecimento, poderão muitas destas cavidades naturais ser afectadas ou mesmo obliteradas, principalmente pela construção ou em consequência da laboração de pedreiras, ou ainda, simplesmente por entulhamento ou utilização como vazadouro de detritos, situações que ocorreram já no Algarve e que têm conduzido a graves problemas ambientais em diversas regiões calcárias.

O registo e a exploração das cavidades do Algarve irá seguramente fornecer um contributo fundamental para a interpretação dos respectivos sistemas cársicos e existem fortes probabilidades de se proporcionarem descobertas significativas ao nível da arqueologia assim como no âmbito de outras ciências. Neste enquadramento, o trabalho preconizado no projecto ProPEA consiste fundamentalmente na identificação e inventariação das cavidades calcárias existentes no Algarve e avaliação preliminar do respectivo potencial num quadro pluridisciplinar, considerando quer o património cultural, quer o natural. Para o efeito procurar-se-á estabelecer uma franca articulação de colaborações entre diferentes entidades, nomeadamente a Direcção Regional de Cultura do Algarve, Universidade do Algarve, autarquias, associações de espeleologia, e outras cujos contributos para o projecto venham a assumir relevância.»