Feliz de quem tiver uma PEDRA em SAGRES

Palavras-chave | Keywords

"Boca do Rio" "Cabranosa" "Cerro do Camacho" "Concheiro do Castelejo" "Ermida da Guadalupe" "Farol de São Vicente" "Fauna e Flora" "Fortaleza de Sagres" "Forte de Almádena" "Forte de Beliche" "Gentes & Paisagens" "Geologia e Paleontologia" "História do Mês" "Martinhal" "Menir da Lomba da Góia" "Menir de Arneiros" "Menir de Aspradantas" "Menir de Bem Parece" "Menires de Milrei" "Menires de Santo António" "Menires de Vila do Bispo" "Menires do Monte dos Amantes" "Menires do Padrão" "Paisagens de Vila do Bispo" "Pedra Escorregadia" "Tales from the Past" "Vale de Boi" "Vale de Gato de Cima" 3D Abrigo Antiguidade Clássica Apicultura ArqueoAstronomia Arqueologia Experimental Arqueologia Industrial Arqueologia Pública Arqueologia Subaquática Arquitectura arte Arte Rupestre Artefactos Baleeira Bibliografia biodiversidade Budens Calcolítico Carta Arqueológica de Vila do Bispo Cartografia Cetárias Cista CIVB-Centro de Interpretação de Vila do Bispo Complexo industrial Concheiro Conservação e Restauro Descobrimentos Divulgação Educação Patrimonial EPAC Escolas & Paisagens de Vila do Bispo Espeleo-Arqueologia Estacio da Veiga Estela-menir Etnografia Exposição Farol Figueira Filme Forte Grutas Homem de Neandertal Idade Contemporânea Idade do Bronze Idade do Ferro Idade Média Idade Moderna Iluminados Passeios Nocturnos Ingrina Islâmico Landscape marisqueio Medieval-Cristão Megalitismo menires Mesolítico Mirense mitos & lendas Moçarabe Moinhos Museologia Navegação Necrópole Neo-Calcolítico Neolítico Neolítico Antigo Paleolítico Património Edificado Património natural Património partilhado Pedralva Pesca Povoado Pré-história Proto-história Raposeira Recinto Megalítico/Cromeleque RMA Romano Roteiro Sagrado Sagres Salema São Vicente Seascape Toponímia Vila do Bispo Villa Romana
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A estação do Neolítico Antigo da Cabranosa | Sagres


Na área de Sagres, no sítio da Cabranosa, os Serviços Geológicos identificaram, em 1970, um povoado precisamente representativo dos primeiros momentos do período Neolítico, datado por Carbono14 de há 6.500 anos (Cardoso e Carvalho, 2003). Desde cedo, os trabalhos ali realizados consagraram bibliograficamente a Cabranosa como um sítio-chave para o entendimento do processo de neolitização do território actualmente português (Ferreira, 1970; Guilaine e Ferreira, 1970; Zbyszewski et al., 1981), sendo consensualmente definido como um acampamento-base, excepcionalmente representativo do Neolítico Antigo regional (Cardoso et al., 2001; Carvalho e Cardoso, 2003; Soares, 1997; Soares e Silva, 2003, 2004).
A investigação arqueológica neste povoado permitiu recuperar algumas conchas e um búzio (púrpura), perfurados para adorno, e um conjunto de artefactos líticos (em sílex, quartzo, quartzito, cristal de rocha e grauvaque) e de grandes recipientes cerâmicos (cerca de 17), de assinalável beleza formal e decorativa, alguns dos quais incrivelmente bem preservados e que indiciam ter servido, não para cozinhar alimentos, mas para a sua recolha.
Interessante o facto de algumas das pastas cerâmicas utilizadas nestas peças apresentarem elementos minerais constituintes provenientes da Serra de Monchique, o que pressupõe um território de exploração bastante alargado para os grupos neolíticos da Cabranosa. Estes excepcionais artefactos cerâmicos fazem hoje parte da colecção do Museu Nacional de Arqueologia, no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, tendo sido apresentados ao público pela 1.ª vez, entre Abril e Maio de 2011, na exposição Neolítico Antigo em Portugal.
De salientar, mais uma vez, o registo directo de fauna marisqueira (mexilhão, lapa e búzios), mas também indirecto, na decoração “cardial” patente em alguns dos recipientes cerâmicos identificados. Associada a uma corrente de expansão cultural neolítica, de primeiros contactos, difundida por via marítima ao longo da costa mediterrânea, a partir do Próximo Oriente, a cerâmica de tipo “cardial” distingue-se por gramáticas decorativas obtidas pela impressão de conchas de berbigão (Cardium edule - cardial - em forma de coração).
Uma das características das primeiras cerâmicas, produzidas a partir do Neolítico, quando comparadas com as de épocas posteriores, será a sua variedade formal e riqueza decorativa, aspectos que deverão associar-se à novidade tecnológica, à sua emergente importância e ao valor simbólico de que se revestiam. Com o tempo, sente-se a tendência para a perda de expressão simbólica na cerâmica doméstica, em favor de uma simplicidade utilitária, tornando-se as decorações mais funcionais (pegas, asas, perfurações de suspensão, superfícies aderentes), havendo uma transferência e continuidade figurativa na cerâmica votiva de âmbito funerário.