artigo de Vasco Rosa
in Observador 09.07.2017
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Artur Pastor em Albufeira
década de 70 |
Treze anos depois
de ter sido adquirido pelo Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa, o
espólio de Artur Pastor (1922-99) foi exibido com tal surpresa e sucesso, em
2014, na galeria da Rua da Palma e no Pavilhão Preto do Museu da Cidade, que a
sua itinerância pelo país viria a ser solicitada, como nenhuma outra na
história daquela importante instituição patrimonial. Quem o diz é Luís Pavão,
conservador do arquivo, que também considera que «este gigante da fotografia
portuguesa» foi ostracizado pela historiografia da arte, que praticamente o
eclipsou do nosso panorama fotográfico das décadas de 1950-60 em que se
destacavam Augusto Cabrita, Eduardo Gagueiro, António Sena da Silva, Carlos
Afonso Dias, Gérard Castello-Lopes, Victor Palla, António Costa Martins,
Fernando Lemos e outros.
E, no entanto, este
discreto regente agrícola nascido em Alter do Chão e crescido em Évora, que
imperativos de serviço do Ministério da Agricultura transferiram por algum
tempo para Montalegre e o serviço militar deslocara para Tavira, tinha em
meados dos anos 50 um trabalho tão reconhecido que a Câmara Municipal da Nazaré
o preferiu para encomendar um álbum de fotografias originais que pudesse ser
oferecido à rainha Isabel II de Inglaterra aquando da sua visita a Portugal em
fevereiro de 1957. Publicações prestigiadas como a Times (1962) acolheram a sua
colaboração, e fotografias de Pastor foram incluídas nos relevantes Mulheres do Meu País de Maria Lamas
(1948-50), Arquitectura Popular em
Portugal (1961) e Évora. Encontro com
a cidade património da humanidade de Túlio Espanca (1988), além de Portugal Romântico de Frederic Marjay (1955).
O fotógrafo
construiu uma extensa obra que serviu de base à fototeca ministerial, com mais
de 10.000 imagens documentando todo o tipo de trabalhos, espécimenes e cenas
agrícolas, ou equipamentos técnicos do Estado, mas a orla marítima foi sem
dúvida — a par do Algarve — o principal motivo do seu trabalho não forçosamente
profissional: em 1943, com 21 anos apenas e uniforme militar, registou
intensamente o espetáculo singular do copejo do atum ao largo de Tavira e
outros aspetos da vida piscatória no Sotavento algarvio; em 1946, expôs Motivos do Sul em Faro, Évora e Setúbal,
quase quinhentas fotografias, entre as quais já um assinalável portefólio
dedicado à pesca em Sesimbra; em outubro de 1949 fotografias suas de Sesimbra e
em agosto do ano seguinte de Albufeira encheram as vitrinas da Casa Alvarez, na
Rua Augusta, em Lisboa; em 1958 publicou Nazaré,
um álbum dedicado a um motivo que já havia captado o interesse de muitos
fotógrafos (de Stanley Kubrick a João Martins e Horácio Novaes); em 1965, por
ocasião da abertura do aeroporto de Faro, editou Algarve, um documentário visual com quase 500 fotografias que é
também uma monografia regional exaustiva, com textos seus, numa edição
bilingue. Amendoeiras em flor (Tavira,
1957-64), já a cor, serve de matriz ao tipo de registo que também seria
divulgado em cartões-postais e caixas de fósforos.
Certo
reconhecimento vem em finais de 1970, quando uma grande retrospetiva do seu
trabalho se apresenta no Palácio Foz, sede do SNI: 320 imagens a preto e branco
e 40 a cor, impressas por António Paixão, um técnico dos laboratórios Filmarte
muito reputado entre fotógrafos dados ao salonismo expositivo. Em 1983, uma
grande mostra sobre Lisboa ocupa os espaços nobres do Palácio Galveias. A
participação em salões fotográficos, no país e no estrangeiro, confere vários
primeiros prémios a Artur Pastor, e a experiência de maquetagem editorial para
edições do Ministério da Agricultura vai habilitá-lo ainda mais para o desenho
de uma dezena de álbuns temáticos prontos a imprimir, mas que ficaram em
gavetas.
Textos de Artur Pastor in “Algarve”, edição de 1965:
“O mar já não é
mar, mas apenas alvoroço branco e sanguíneo,
em constante agitação.
A gritaria
aumenta.
Chocam-se, confundem-se os brados de vitória”.
“Os peixes debatem-se e morrem.
O campo verde de batalha não é
agora mais que que líquido viscoso.
Alucina e entristece.
O homem, somente um
animal que fere, que golpeja, sem misericórdia.
Dir-se-ia assistirmos a um
massacre ruidoso e fantástico de épocas primitivas.”
“Os pescadores estão encharcados,
completamente debruçados em desequilíbrio,
tal o desejo de embicharem os peixes
que lhes passam próximos, diligenciando,
mercê do esforço coletivo de dois ou
três homens,
aproveitarem a sapatada que o atum dá quando se sente preso e trazem-no
para bordo.”
“Pesadas gotas de suor, que descem pelas
faces bestializadas dos pescadores,
atestam o imenso esforço.”
“Nadando ou arrastando-se, com água pela
cintura,
firmam-se no dorso escorregante dos atuns fugidos, lembrando deuses
marinhos.
Ou agarram-nos de lado, como se tratasse de garraios
irrequietos e ousados.
Uns caem, outros riem.
Um odor de carnificina
principia enjoar.”
“O sol rebrilha e turva o entendimento.
A paisagem marítima parece-nos violenta, nervosa, quase frenética.”
Registos
fotográficos de Artur Pastor
no Concelho de Vila do Bispo, décadas de 50/60
Álbum “Algarve”, edição de 1965:
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