Feliz de quem tiver uma PEDRA em SAGRES
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A necrópole da Idade do Bronze e a Estela da Figueira | Budens

Num pequeno cerro, 1 km a sul da actual povoação de Figueira (Budens), encontra-se uma necrópole de cistas datada dos finais da Idade do Bronze (séculos X-IX a.C.). 
Associada aos sepulcros, consta ter sido assinalada uma estela, talhada em arenito vermelho (conhecido regionalmente por 'grés de Silves' e localmente por 'pedra farinheira') e gravada com decorações que representam um personagem antropomórfico: um guerreiro, um escudo circular, com escotadura em "V", e uma ponta de lança (ver imagens abaixo obtidas com o recurso a iluminação dirigida). 
A Estela da Figueira (e o seu 'Homo figueirensis') encontra-se actualmente integrada no acervo do Museu Municipal de Lagos Dr. José Formosinho.


Na área envolvente à necrópole de cistas, ainda se  podem observar alguns fragmentos de menires, bem como outros indícios de presença humana de época romana e medieval.


A Estela da Figueira
actualmente integrada no acervo do 
Museu Municipal de Lagos Dr. José Formosinho

Estela da Figueira
(seg. Gomes e Silva, 1987)
Estela de Ategua/Córdoba, in Museo Arqueológico de Córdoba
(Fotografia de R. Soares)

«Relativamente às estelas decoradas do Sudoeste Peninsular, também conhecidas por de Guerreiro, de Tipo Extremeño ou de Tipo II, estas têm vindo a revelar-se como um excelente “fóssil director” para a progressão temporal e espacial dos já referidos impulsos culturais, para a consequente dinâmica de transformações histórico-culturais e para a compreensão do fenómeno de complexificação social ocorrido ao longo da Idade do Bronze. Por outro lado, tendo em conta a natureza dos objectos gravados nas estelas, alguns de consensual origem oriental, estas têm constituído um recorrente argumento na defesa de teses acerca da “pré-colonização” (Arruda, 2008, p. 365). Estes monumentos têm vindo a ser datados de uma fase avançada do Bronze Final – “entre os séculos X e IX a.C. ou mesmo IX-VIII a.C.” (ob. cit., 366).
Constituindo verdadeiros “mitos de sobrevivência” (Edgar Morin), numa tendente personificação iconográfica do poder, parecem integrar “a morte dos grandes personagens, de forma a permitir que a cultura e a organização social se reproduzissem no seio da memória colectiva” (Gomes, 1992, p. 117), numa “dinástica” estratégia de manutenção e continuidade da sua influência nas comunidades que lideravam, no “que julgamos ter sido o suporte social e administrativo do Sudoeste Peninsular durante a Idade do Bronze Final” (ob. cit., p. 117). “Associar ao defunto armas reais, produzidas em metal, ou gravar na tampa da sepultura [ou estela] a respectiva figuração não nos parece essencialmente diferente, do ponto de vista da simbólica do poder” (Senna-Martinez, 2007, p. 126).
Trata-se, portanto, de um grupo de monumentos que demarcaria as sepulturas de um privilegiado e limitado número de indivíduos com atributos de chefia – “grandes personagens e guerreiros prestigiados, em alguns casos verdadeiros ‘heróis civilizadores’, capazes de manter a organização social, imposta pela metalurgia e comércio dos metais e o progresso em geral” (Gomes, 1992, p. 115); “exibem a posição social privilegiada de alguns indivíduos ou a existência de rituais de antepassados (‘ancestor rituals’) conotados com heróis-fundadores” (Parreira, 1998, p. 270). Recorde-se que a Idade do Bronze foi também o palco dos homéricos “heróis civilizadores”, uma Odisseia de épicas viagens de descobertas, de périplos mitológicos, de percursos iniciáticos e primordiais. Na Arrábida, entre o espólio funerário dos dois “personagens” da Roça do Casal do Meio, foram exumados alguns itens análogos aos figurados nas estelas do Sudoeste – duas pinças e um pente.
Ainda no domínio do simbólico mágico-religioso, assiste-se, na Idade do Bronze, à gradual substituição de uma ritualidade rural de carácter feminino, figurada na “deusa-mãe” (a natureza, a terra, o barro e a fecundidade), por uma iconografia manifestamente masculina, patente na arte rupestre e nas estelas do Sudoeste (a guerra, o guerreiro, o metal, as armas e as primeiras figurações do poder). A olaria, enquanto actividade tradicional do mundo das mulheres, perde importância para a metalurgia, enquanto especialidade masculina. Os restritos mistérios dos elementos ganham novos “alquimistas”, transformadores e produtores de novas matérias. A “sagrada fertilidade” do barro e das oleiras é “brunida” pelo profano metal dos metalúrgicos e guerreiros. As sociedades de tendência matriarcal, mais naturalistas e igualitárias, são agora “maculadas” por um competitivo espírito guerreiro e pelas novas hierarquias e emergentes elites.»