Feliz de quem tiver uma PEDRA em SAGRES
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Espeleo-Arqueologia de Vila do Bispo: nas profundezas do tempo

Bloco de Notas, Notícias & Referências acerca do património cavernícola do Concelho de Vila do Bispo, com especial atenção para as cavidades e abrigos com vestígios arqueológicos de presença humana. 

Neste capítulo, em suporte digital, pretende-se dar notícia das acções promovidas no âmbito do projecto de levantamento sistemático, espeleo-arqueológico, de Vila do Bispo, a integrar na sua futura Carta Arqueológica

Explorando as referências actualmente disponíveis, torna-se obrigatório inaugurar este trabalho pelo incontornável contributo do pioneiro da científica investigação arqueológica algarvia, Sebastião Philippes Martins Estacio da Veiga, designadamente pelo volume I das suas Antiguidades Monumentaes do Algarve: VEIGA, E. da (1886) – Antiguidades Monumentaes do Algarve - Tempos Prehistoricos, vol. I. Lisboa: Imprensa Nacional, p. 33-61.
Nos finais do século XIX, Estacio da Veiga realiza a Carta Archeologica do Algarve, cria o Museu Archeologico do Algarve e publica as suas Antiguidades Monumentaes do Algarvelegando-nos um inestimável acervo de informação arqueológica regional,  associado à enumeração de um conjunto de fundamentais pressupostos metodológicos e de orientações científicas para a actividade arqueológica nacional, plenos de actualidade e que ainda hoje deveriam servir de guião para os nossos trabalhos.
Segue-se, assim, uma selecção de passagens do volume I das Antiguidades Monumentaes do Algarve de Estacio da Veiga, genericamente dedicadas à investigação arqueológica em ambientes cársicos e, mais especificamente, às "Cavernas" do Concelho de Vila do Bispo.

VEIGA, E. da (1886) – Antiguidades Monumentaes do Algarve - Tempos Prehistoricos, vol. I. Lisboa: Imprensa Nacional, p. 33-61.


Cavernas (Vol. I p. 33-40; 49-54)
«Sob a denominação de caverna correm confundidos vários termos de equivalente significação, taes como fuma, algar, gruta e lapa, que todavia poderiam ser estremados com restricção especial, tendo-se em apurada conta o sentido, mais popular que litterario, com que a gente campesina emprega cada um d’esses vocabulos.
Pela designação de furnas são assás conhecidas no Algarve as cavernas da costa maritima, ao passo que na região sertaneja ou serrana se denominam algares, sobretudo se as suas entradas
são abertas na rocha á feição de poço, se dão entrada ás torrentes pluviaes e medem grande profundidade.
Não é tão  nomeada a gruta como o são a furna e o algar, e comtudo os habitantes do campo sabem distinguil-a, applicando o termo a certas cavidades de limitadas dimensões, que podem ser utilisadas para abrigo de gados e pastores.
De todas as mencionadas palavras a menos vulgar é a lapa, que mais geralmente se refere, não tanto a covas e nichos que se acham em rampas de montes e n’outros logares, como a grandes chapas de rochas estratificadas, que se destacam das pedreiras ou se encontram isoladas e dispersas.
Cabe n’este logar, embora como simples curiosidade, que o viajante póde admirar no tracto da raia maritima, comprehendido entre a ponta de Sagres e a occidental de Albufeira, a noticia de umas formações, de todo o ponto singulares, devidas á acção erosiva das aguas e a outras causas ou agentes naturaes, a que promiscuamente se dão os nomes de fôjos, pégos e abysmos, sendo este talvez o mais apropriado, se ao mesmo tempo se lhe juntar o de precipicios, como de feito o são para os incautos e desprevenidos, que percorrem os logares em que existem uns tão pavorosos phenomenos da natureza.
No curso de geologia, regido na escola polytechnica de Lisboa pelo sabio decano d’aquelle illustradissimo professorado, o sr. conselheiro dr. F. A. Pereira da Costa, abalisado mestre dos geologos portuguezes, a quem as sciencias physicas e naturaes, e a archeologia prehistorica devem serviços do mais elevado alcance, que em tempo algum, sejam quaes houverem de ser os progressos d’essas sciencias n’este paiz, poderão ficar em deslembrança, consta-me haver o mencionado sabio lente de mineralogia e geologia, antigo director d’aquella escola e meu também antigo e sempre respeitavel mestre, feito referencia a essas construcções naturaes da costa maritima do Algarve, dando-lhes porém a denominação especial de marmitas de gigantes. Nunca assisti ás prelecções em que o sapiente professor se tem occupado d’este assumpto e por isso não estranharão os seus modernos discipulos, se alguma vez honrarem os meus escriptos com a sua leritura, de não o acharem aqui tratado com tanta proficiencia e lucidez como lhes foi ensinado, ficando advertidos de que o meu principal intuito se limita simplesmente a registrar, no genero caverna, a marmita de gigantes, a que mais vulgarmente, como disse, ouvi dar a denominação de fôjo, pégo, ou abysmo,  mas que n’um documento official tem ainda outro nome.
As denominações de marmita de gigantes, de caldeira, ou pot-holes dos inglezes, applica Beudant, no seu curso elementar de geologia, sob a epigraphe, Effects des chutes d’eau, não tanto ás cavidades que no leito das ribeiras, e mui provavelmente no de mares pouco fundos, são produzidas pelo redemoinho das aguas que dão movimento giratório ás areias e calhaus que as torrentes arrastam, e a que se geralmente o  nome de turbilhões ou de sorvedouros, porém mais especialmente áquellas cavidades que se acham em terrenos elevados, e já fóra da acção de qualquer quéda de agua; e com este fundamento, talvez, applicou o sr. dr. Pereira da Gosta a denominação de marmitas de gigantes ás enormes caldeiras da praia elevada do Algarve constituidas, e para dar melhor idéa da causa que as produziu, incluiria no grupo geral as que ainda estão em via de formação.
Uma diversa nomenclatura, hoje esquecida, ou antes desconhecida, foi imposta a essas caprichosas construcções naturaes no fim do seculo passado, quando o benemerito conde de Valle de Reis, Nuno José Fulgencio de Mendoça e Moura, sendo governador e capitão general do Algarve,  mandou levantar a planta das fortificações de todo o litoral maritimo pelo tenente coronel José de Sande e Vasconcellos. Este engenheiro, no seu trabalho inedito, intitulado Mappa da configuração de todas as praças, fortalezas e baterias do reino do Algarve representa a rocha de Sagres para poder figurar a fortaleza, a praça, e a bateria, que existe na extremidade propinqua ao oceano, e n’esta planta marca os logares em que ha dois d’esses famosos abysmos, dizendo n’uma nota: «Bôcas de dois hydrophilacios, que são uns vacuos subterrâneos cheios de agua que respiram para a superficie da terra».
A planta de Sagres não tem escala e por isso não posso designar as distancias em que estão os hydrophilacios relativamente á bateria da ponta de Sagres, de que mais se approximam do que das muralhas da praça.
Na celebre obra do sr. Major, Vida do infante D. Henrique, traduzida do inglez pelo sr. José António Ferreira Brandão, e mandada publicar  em 1876 pelo sr. duque de Palmella, meu antigo condiscipulo no primeiro e segundo anno de mathematica na escola polytechnica,  vem uma planta da peninsula de Sagres (pag. 107), em que é figurado a um quarto de milha ingleza para o sul um d’esses pavorosos abysmos. Devo. porém, advertir o viajante que visitar aquelles logares, que o primeiro hydrophilacio ou abysmo, seguindo-se da praça para a bateria, acha-se á esquerda, um tanto ao nascente, e o segundo muito mais perto da bateria no lado opposto, e por isso póde passar entre elles e observal-os com prudente cautela, quando não prefira levar um guia, que o encaminhe por aquelle admiravel isthmo, que as embravecidas ondas do oceano, em dias procellosos, parece quererem subverter, não obstante estar sobre o nivel das aguas em altura de 39 metros, como indicando o unico ponto do mundo que o brio nacional deve preferir a quantos hão sido indicados para ser honrado e honrar-se com uma estatua de bronze levantada em memoria do preclarissimo infante de Portugal.
Os hydrophilacios ou marmitas de gigantes occupam na secção marginal e propinqua ao oceano, entre Sagres e Albufeira, varios pontos da praia elevada, em que imperam as formações do jurassico superior, do terciario marino e lacustre e do cretaceo inferior. A sua configuração geral é approximadamente a de um poço de larguissimo diametro com abertura irregular na base, mais ou menos ampla, em communicação com o mar, variando a sua profundidade, ou altura do eixo vertical, na razão directa da cota de nivel do solo superficial com referencia á das aguas salgadas.
Quando nas rochas, de que se compõem as praias alias, ha fracturas naturaes ou accidentaes, provenientes de retracções, de violentos abalos da terra ou de outras causas, em contacto com o mar, bastam estas duas simultâneas circumstancias para se operar a formação dos abysmos ou marmitas de gigantes. As ondas, arremessando-se com impetuosa violencia, invadem o ambito d’essas anfractas fendas, produzindo na sua ascensão um violento attrito, que necessariamente promove o alargamento gradual do espaço em que é exercido. Não é porém a força impulsiva que recebem as aguas invasoras o poderoso agente do alargamento e muito menos ainda da configuração proximamente circular, que manifestam esses amplos precipicios em cujo fundo o incessante embate das ondas produz pavorosos estrondos, similhantes a fortes detonações. Dada pois a simultaneidade das preditas circumstancias n’um determinado logar, se a ascensão da massa liquida, que invade as fendas das rochas até acima da superficie do solo fracturado, é a causa que origina essas tão singulares formações, a sua quéda, obedecendo ás immutaveis leis da attracção universal, descobertas por Newton e sanccionadas por Cavendish, as desenvolve e acaba, porque essa quéda é determinada pela gravidade inherente a todos os corpos terrestres, ou força que incessantemente os attrahe para o centro da terra, sendo n’este caso os seus principaes elementos a densidade do corpo liquido que se elevou e a reacção da sua velocidade adquirida – regidos pela força centrifuga no seu descente movimento accelerado, da qual resulta uma poderosa acção erosiva de rotação contra as paredes das fendas e consequentemente a configuração de taes formações.
Em resumo, póde-se portanto dizer, que o continuo trabalho das ondas, determinado por leis e forças naturaes em todos os seus movimentos, invadindo as fendas das rochas fracturadas, propinquas ao oceano, é a causa que produz os abysmos denominados hydrophilacios ou marmitas de gigantes.
No caminho que vae do apparatoso cabo Carvoeiro, massa compacta de cretaceo inferior, para a ermida e bateria da Senhora da Rocha, construida sobre uma extensa formação de terciário lacustre superior, existe um d’esses abysmos, assaz profundo, cujo diametro não medirá menos de 30 metros, e como este se encontram outros muitos no rumo de poente até á ponta de Sagres, como ficou dito.  Convem pois não transitar por esses logares, em que de repente o incauto viajante póde achar-se á beira de um precipicio, sem levar um guia que o saiba encaminhar com a precisa segurança. Alguns d’esses abysmos  podem ser visitados pela praia  sem grande difficuldade na hora de baixamar, e não soprando ventos rijos dos quadrantes do sul; mas escusado seria quererem-se procurar vestigios de aproveitamento humano n’esse genero de cavernas, que a natureza parece ter formado para caprichoso respiradouro das tempestades do mar.
O estudo scientifico das cavernas occupa ha muitos annos a actividade intellectual dos sabios mais dedicados ás sciencias naturaes, á historia da humanidade e da industria prehistorica, podendo dizer-se que os resultados d’este estudo, tão complexo e variado pelas suas intimas e mutuas dependencias, vieram vincular em nossos dias uma serie de affirmações importantissimas, que as gerações precedentes não poderam congregar.
Desde antigos tempos correm vagas noticias e tradições relativamente ás cavernas e não poucas se encontram dispersas em obras de escriptores classicos, gregos e latinos. Varios geographos, historiadores e poetas da antiguidade fallaram por vezes d’esses mysteriosos edifícios, que a natureza construiu e escondeu no amago da terra; ficou porém como reservado para o presente seculo o reconhecimento geologico, paleontologico e archeologico, destinado á comprovação das epochas e das condições de jazida em que n’esses reconditos depositos se hão manifestado ossos humanos, ou productos da industria do homem, associados aos despojos dos grandes mammiferos extinctos, ás ossadas de alguns ainda viventes,  mas emigrados em regiões glaciaes desde as modificantes evoluções por que passou a crusta do globo após o periodo post-plioceno, e finalmente ás espécies da fauna actual; o que veiu logo mostrar que as raças humanas, desde as suas mais remotas manifestações, utilisaram as cavernas.
Póde, pois, affirmar-se, que ás cavernas devem poderosos subsidios de elucidação a geologia, a paleontologia e a archeologia prehistorica. Se não fôssem as suas tão significativas revelações, a sciencia não teria attingido os complexos desenvolvimentos que actualmente a constituem, ou antes a estão preparando para ainda emprehender novas soluções sobre muitos assumptos em discussão.
Em todas as regiões da terra ha cavernas naturaes, devidas a diversas causas, que promoveram e promovem a sua formação e desenvolvimento, bem como uma multiplicidade de modificações em harmonia  com as oscillações e movimentos que os agentes dynamicos ou forças motrizes e as acções chimicas continuamente exercem no interior da crusta, composta de muitos e diversos elementos.
Até ha poucos annos julgou-se que as cavernas sómente se podiam formar nas montanhas jurassicas, porque n’essas rochas são mais frequentes, com effeito, as grandes cavidades, deslocações, abatimentos locaes e fracturas mais ou menos consideraveis, como resultado da natureza especial d’essa formação, das acções plutonicas, da retracção e exsicação dos stractos e da erosão; mas a observação tem verificado a sua existência nas series sedimentares, principalmente na mesozoica e cainozoica, comquanto nas regiões propriamente calcareas sejam mais vastas e muito mais abundantes.
É o facto que  tambem se verifica no Algarve e se mostra, posto que em minguada escala, com a indicação, feita na carta prehistorica, de algumas cavernas mais conhecidas n’esta zona geographica.
Não será mui difficil ao leitor instruido reconhecer a natureza dos terrenos em que vão marcadas as cavernas a que me refiro, tendo á vista a carta geológica do reino e reduzindo á sua escala de 1:500:000 a do Algarve, que está approximadamente na proporção de l:200:000.
D’este  modo se observará, pois, que algumas cavernas do litoral maritimo estão abertas em rochas diversas d’aquellas em que se acham as da região central, e que, exceptuando as rochas eruptivas, e a maioria (talvez a totalidade) das da serie paleozoica, nas outras duas series sedimentares ha mais ou menos cavernas e grutas. Faça-se um estudo especial n’este sentido, que as confirmações não tardarão (...).»

«Fica pois em aberto na prehistoria do Algarve esta lamentosa lacuna, que impede talvez desde uma serie de importantes conclusões; mas não podercá agora, nem em tempo algum ser lançada á conta da minha ignorancia, porque empenhei todo o meu esforço para que o estudo das antiguidades d’esta província começasse pela exploração das cavernas.
Em Portugal pouco relativamente se tem feito, comquanto sejam dignos de grandissimo louvor os trabalhos do sr. Joaquim Filippe Nery Delgado nas grutas de Cesareda e os que foram mandados fazer em varias cavernas por Carlos Ribeiro, a  quem este paiz e a sciencia ficaram devendo serviços do mais transcendente valor, para que o seu nome em todos os tempos futuros mereça gratissima recordação, e a sua perda, n’uma conjunctura em que muito se devêra esperar de seu genio tão laborioso, seja justamente sentida e por emquanto irreparavel.
São excellentes, abundantes de revelações importantissimas, e altamente valiosos os trabalhos, concernentes a grutas e cavernas, do sr. Nery Delgado e de Carlos Ribeiro; mas esses trabalhos são essencialmente monographicos, e comquanto forneçam elementos de grande alcance, consignem asserções e conceitos de utilissimo aproveitamento, não podem pela sua indole, especialmente local, manifestar a feição geologica, paleontologica e archeologica que a sciencia reclama e exige ao territorio d’esta nação.
Marcadas na carta geographica do reino as grutas e cavernas exploradas e estudadas pelos mencionados geologos, perceberse-ha immediatamente que esse limitado numero de pontos isolados representa apenas a gloriosa inauguração de um novo estudo em Portugal, coroada do mais feliz exito e merecidamente estimada, sem que comtudo permitta ainda as conclusões, que sómente poderiam deduzir-se de um estudo geral, rigorosamente geographico e systematico em todo o território nacional.
Falta o nexo ethnographico para ligar esses pontos estudados com as numerosissimas cavernas não estudadas que occupam uma grandiosa parcella do nosso chão continental; falta o conhecimento geral das faunas que se deixaram representadas n’esses obscuros receptaculos; falta o conhecimento das raças humanas que povoaram ou frequentaram esses reconditos abrigos; faltam as manifestações directas dos typicos productos da industria de cada uma d’essas raças; falta o conhecimento dos pontos que ligaram as estações troglodyticas d’este solo  com os dos territórios adjacentes, ignorando-se portanto o trajecto da marcha, se a houve, que seguiram em cada periodo os povos que habitaram as cavernas; e admittindo-se que a peninsula não tivesse tido aptidões de geração biologica propriamente suas, e só se povoasse com gente de estranhas plagas, falta o reconhecimento do hypothetico ponto de partida d’essa gente ao entrar n’este território e o da sua ultima estação, assim como de não estar ainda feito este apuramento, a que se devera chegar, falta  tambem uma serie de outras importantes noticias para, á luz da critica dos factos, se poder interpretar e reconstruir cada uma d’essas remotissimas civilisações e escrever-se a sua historia, começando-se pelos primeiros assomos da existencia  humana n’esta derradeira faxa occidental da terra.
Assim como a geologia, no estado de progresso a que já hoje tem chegado, póde afoutamente determinar as evoluções cósmicas e os cataclysmos por que passou esta parte do continente europeu, enumerando as phases de sublevação e o de abaixamento até á fixação do actual relevo orographico pelo simples exame das suas rochas sedimentares plutonicas e metamorphicas, pela composição mineralogica e direcção que ficaram tendo as montanhas e os valles, incluindo o curso dos rios e ribeiras, do mesmo modo a paleontologia poderia determinar as faunas que povoaram este solo, pela maior parte primitivamente inundado; a anthropologia ou paleontologia  humana poderia já apontar as raças que viveram n’esta região, e foram ainda testemunhas impassiveis das grandes perturbações que parcialmente modificaram o relevo e configuração da crusta terrestre após o período post-plioceno, por isso que, a admittirem-se como comprovações indirectas da existencia humana os productos da sua industria encontrados por Carlos Ribeiro nos valles do Tejo e do Sado, n’este territorio havia homens na epocha terciaria, como tambem os havia n’outras regiões do globo; e finalmente a archeologia prehistorica chegaria a inventariar chronologicamente, permitta-se-me a impropriedade do termo, as provas da industria dos homens, as phases de desenvolvimento e perfeição relativa por que foram passando de umas para outras civilisações, incluindo o modo de viver e de sentir de cada uma, deduzindo-se d’essas mesmas provas e das condições dos seus jazigos.
Está tudo isto por fazer e por saber, porque faltam estudos fundamentaes, que  podem ser emprehendidos, mediante um plano rigorosamente systematico, por uma sociedade cientifica expressamente organisada para este fim especial, já que as existentes no nosso paiz parecem ter-se totalmente esquecido da sua propria indole e da obrigação social, que se arrogaram, de levarem a cultura e o progresso das sciencias até o seu maximo desenvolvimento!
Era ás academias e sociedades altamente scientificas do reino que competia a iniciativa, o primeiro brado, o primeiro esforço n’este sentido, para assim se desempenharem da responsabilidade que contrahiram  com o paiz,  com a sua propria dignidade e  com o futuro, cumprindo aos governos sabios, illustrados e patrioticos, o concurso dos seus mais efficazes e poderosos auxilios, como se tem feito na França, na Belgica, na Allemanha, na Inglaterra, e mesmo n’outras nações de menor vulto,  mas que prezam a sciencia e o pundonor nacional.
Nada d’isto se tinha emprehendido até 1877, quando a voz publica convidou o governo a mandar estudar umas antiguidades que fortuitamente haviam ficado á vista na margem direita do rio Guadiana e em varios pontos do Algarve.
Fui eu incumbido d’este estudo, sem que para isso me fizesse lembrado, e pedi logo tres mezes de espera para organisar o plano geral dos trabalhos que havia elaborado.
Entendi então, como entendo hoje, que em Portugal, embora houvesse varios especialistas em diversos ramos da archeologia monumental, nenhum tinha ainda manifestado o minimo plano para levar o paiz a confraternisar com as nações que maiores provas estavam dando do seu progresso n’esta sciencia.
Apenas tinha apparecido um geologo audacioso, mas convicto da significação dos seus descobrimentos, que, atravessando a Europa, fôra proclamar n’um congresso de sabios a comprovação do homem terciario no territorio portuguez, e era Carlos Ribeiro o athleta que se atrevêra a affrontar essa lucta, ainda hoje não vencida,  mas altamente gloriosa, como a seu tempo se reconhecerá.
Em archeologia historica tinha apparecido Emilio Hübner, um dos mais abalisados epigraphistas da Allemanha e professor da universidade de Berlim, colligindo e publicando a riqueza epigraphica que ainda existia em Portugal, depurando-a das incorrecções com que o visconde de Paiva Manso havia compilado e publicado as nossas inscripções romanas.
O sábio dr. Pereira da Costa publicava pouco depois as suas preciosas memorias ácêrca dos kjoekkenmoeddings de Cabeço de Arruda e das antas de Portugal. Nery Delgado abria o caminho para o estudo das cavernas, publicando a sua famosa memoria ácêrca das grutas de Cesareda, seguindo logo Carlos Ribeiro com o estudo de outras cavernas.
Começava pois a haver um certo movimento, uma certa excitação no animo d’esses benemeritos da sciencia, a quem este paiz sem duvida alguma deve relevantissimos serviços; mas plano geral para o estudo das antiguidades do reino, tanto prehistoricas como historicas, não tinha apparecido, como disse, até 1877.
Estando pois encarregado officialmente do estudo geral das antiguidades do Algarve para poder represental-as na carta archeologica, que tinha começado a esboçar em outubro de 1865, entendi ser aquella a occasião de poder lançar as bases definitivas para o reconhecimento methodico das antiguidades do reino.
A carta archeologica do Algarve devia portanto symbolisar todas as antiguidades que se podessem verificar n’esta provincia, sendo a sua representação subordinada a uma ordem regular e methodica, por isso que tinham de ser descriptas, segundo essa ordem indispensavel.
Procurar onde deveriam achar-se as mais antigas manifestações de occupação territorial e seguir pelas subsequentes até, pelo menos, á data da conquista portugueza, seria o plano mais
completo de averiguação, e conseguidos estes resultados, ficaria estabelecido o systema para o estudo e representação das antiguidades geraes.
Foi o que pretendi levar a effeito.
Comecei por indagar se nos estudos geologicos feitos no Algarve se tinham encontrado provas directas ou indirectas das civilisações que em tempos remotos senhorearam este território, e não tendo ficado noticia alguma a este respeito, concebi logo o pensamento de procurar essas provas geologica e archeologicamente no amago das cavernas naturaes d’esta região. Formulei n’este sentido a minha proposta; propuz que fôssem primeiro que tudo exploradas as cavernas; mas o governo, temendo a demora e os dispendios que poderiam custar aqui trabalhos identicos aos que tinham sido feitos na Belgica por Schmerling e Dupont, rejeitou- a, limitando o seu encargo ao exame das antiguidades indicadas no solo por vestigios apparentes.
O exame das antiguidades do Algarve soffreu assim um profundo córte fundamental.
Cumpri portanto as ordens do governo, não explorando as cavernas,  mas tomei nota dos pontos em que existiam as principaes para simplesmente as indicar a futuros exploradores. É uma lacuna que fica em aberto, sem que nunca possa ser-me apontada como censura.
Ha muitas mais cavernas, muitissimas, que não me seria difficil descobrir e indicar, se podesse fazer d’este assumpto um exame especial sem a intervenção do governo, a quem nunca mais acceitarei commissão alguma de serviço publico subordinada aos prasos, de todo o ponto viciosos e absurdos,  com que um chefe de repartição calcula o tempo material que deve levar uma qualquer exploração scientifica, parecendo não formar a mínima idéa d’este genero de trabalhos!
Advertirei finalmente, que estes estudos não soffrem as restricções ineptas dos prasos, que podem todavia ser muito úteis para certas empreitadas de trabalhos de artes e officios,  mas que são incompativeis com aquelles que nenhum fundamento ministram ao calculo da zelosa burocracia. Melhor será, pois, quando o governo queira mostrar-se altamente interessado pelo estudo dos monumentos nacionaes, determinar uma verba annual para se dispender com esse estudo, e mandal-a competentemente fiscalisar, porque d’este modo se conseguirá o resultado, fazendo-se os trabalhos em devida regra. Extincta a verba, o explorador deixa o campo preparado para continuar no anno seguinte, se tanto for preciso, e recolhe-se para estudar e descrever o fructo dos seus descobrimentos. Póde ser que este alvitre manifeste alguns inconvenientes; mas, pelo menos, é racional e toleravel.
Eis-aqui a distribuição geographica das poucas cavernas de que tomei nota e indiquei na carta prehistorica.»

Cavernas do Concelho de Vila do Bispo (Vol. I p. 58)

Caverna ou Furna da Barriga (Vol. I p. 58-60)
«Está esta caverna, a que dão o nome de furna, situada a nordeste e distante da ponta do Cabo de S. Vicente uns 5 kilometros. É accessivel a sua entrada tanto pela praia da costa occidental, como pelo lado da terra, e não pouco é frequentada por caçadores dos pombos bravos que n’ella se abrigam. Servindo-me dos apontamentos que devo ao meu obsequioso patricio e amigo o sr. coronel Francisco Corrêa Leotte, a caverna da Barriga passa por ser uma das mais vastas de todo o litoral maritimo. Referem homens antigos da Villa do Bispo, que um estrangeiro, visitando-a, e querendo medil-a, deixára amarrada á entrada a ponta de uma corda muito comprida e que segurando-se á outra ponta a desenrolou inteiramente sem conseguir chegar ao fim; o que não parece inverosimil, se com effeito é certo haver um manuscripto inedito do bispo Jeronymo Osorio, como se diz, affirmando ter esta immensa caverna 1 legua de extensão. O sr. Corrêa Leotte afirma não ter podido visitar toda a caverna, porque a curta distancia da entrada achou a passagem obstruida por um dilatado pégo, produzido pela corrente das aguas.
Deve notar-se a circumstancia de estar apenas 2 kilometros distante para nordeste o sitio do Catalão, onde se tem achado muitos machados de pedra polida em trabalhos ruraes. Um d’eles foi alli mesmo por mim comprado a um camponez e é o que represento sob n.º 2, na estampa II. Fica tambem esta caverna distante pouco mais de 6 kilometros para oes-sudoeste da Villa do Bispo, onde se tem achado muitos machados de pedra, além dos que alli comprei a gente do povo para a minha collecção, um dos quaes vae figurado com o n.º 1, na mesma estampa II. Logo a 1 kilometro para es-sueste da villa, está o sitio dos Sellanitos próximo á corrente da ribeira de Benaçoitão, em que igualmente comprei o machado de pedra n.º 4, da estampa II, e me informaram terem sido encontrados outros muitos. Dos Sellanitos passando ao norte do Barranco das Hortas e atravessando a ribeira da Zorreta, outros machados de pedra me foram oferecidos por Joaquim Leal, achados em Budens, Areias e Curraes, que n’esta ordem represento com os n.º 1, 2 e 3, na estampa III, assim como na estampa IV, sob n.º 1, mostro um instrumento de pedra polida, pontagudo n’uma extremidade, que comprei no Serro do Haver, quasi marginal ao rio de Almádena, mui similhante a outros tres da Torre dos Frades, que me offereceu António Marcellino Madeira.
Ora, quem tiver á vista a carta prehistorica, e observar a serie dos pontos designados entre a caverna da Barriga e o Serro do Haver, notará que toda esta secção topographica está assignalada ethnographicamente por caracteristicos attinentes a um povo que a senhoreou no periodo da ultima idade da pedra, ao qual seria difficil attribuir outro abrigo de habitação que não fôssem as mais proximas cavernas, como podem ter sido, além das que ficam por apontar, as tres seguintes, marcadas na carta, isto é, a dos Ouriçaes, a de Beliche Velho e a de João Vaz; e por isso bem comprehensivel é, quanto seria interessante e presumptivamente promettedora a exploração que se emprehendesse n’esses reconditos edificios da natureza.
Estas circumstancias de congruencia, suggeridas á observação e á hermeneutica, vão porém escapando-se pela tangente das conveniencias materiaes e, a titulo de economia publica, sendo desprezadas por quem não entende o seu alcance ou não duvida sacrifical-o em troca de uma verba de despeza, que o simples bom senso reconheceria ser indispensavel applicar-se em beneficio de um estudo que tem principalmente de ser baseado na critica dos factos. Não se percam porém de vista as outras tres cavernas, além das que omitto, que vão marcadas entre o cabo de S. Vicente e a enseada de Sagres, se alguma vez houver quem as saiba procurar e explorar.»

Gruta ou Furna dos Ouriçaes – Praia do Telheiro ou da Roiçada (Vol. I p. 60)
«Está situada junto á praia da Roiçada, a que também chamam do Telheiro, 1 kilometro a noroeste da ponta do cabo e outro ao sul do Leixão de S. Vicente, sobre a costa occidental. Não tenho noticias especiaes d’esta gruta. Diz-se ser assás espaçosa, frequentada por bandadas de pombos bravos, por lontras e rapozas, cujas pégadas, coprolithes, e ossadas alguns caçadores têem observado. Como não me foi permitido o estudo das cavernas, deixei de visitar esta gruta ou furna dos Ouriçaes, quando fui investigar se ainda n’aquelle extremo retalho de terra firme haveria vestigio d’aquellas mysteriosas pedras Lapides multis in locis ternos aut quaternos impositos, a que se refere Strabão, e que não obstante o sentido em que o geographo grego as toma, são interpretadas como significando antigos dolmens pelo barão de Bonstetten, e se a minha rapida passagem pela região do cabo de S. Vicente não me permitiu atinar com vestigios de construcções megalithicas, de tumuli ou galerias cobertas, como julgo deverem existir, achei comtudo quem me vendesse um pequeno machado de pedra polida, que represento com o n.º 3, na estampa II, encontrado nas escarpas da rocha proxima ao acastellado convento de S. Vicente, e me informasse de terem apparecido outros muitos n’aquenas paragens; o que bem deixa entender que a população neolithica frequentou aquelles logares, onde de outras habitações, além das cavernas, não ha vestigios.
Não se me tome porém tanto á risca ou como prova de affirmação este conceito, para se dar como averiguado ou como concludente o facto da habitação da gruta dos Ouriçaes, porque lá estão outras não indicadas na carta prehistorica, que poderiam ter sido preferidas. Citarei a seguinte.»

Furna ou Caverna do Beliche Velho (Vol. I p. 61)
«Está situada na costa maritima, comprehendida entre o cabo e a ponta de Sagres, e mais restrictamente entre a fortaleza de Beliche e a ponta de Sagres. Diz-se ser grandiosa, mas não encontrei quem me désse approximada idéa das suas dimensões, configuração, e das particularidades apparentes que possam recommendal-a a um estudo especial, além da circumstancia de se achar n’uma zona de terra em que têem apparecido instrumentos de pedra e a que o testemunho histórico de Strabão, bem como as tradições propagadas por Artemidoro, contemporâneo de Julio Cesar, attribuem uma remota habitação.»

Furna de João Vaz – Baleeira (Vol. I p. 61)
«É esta a ultima furna ou caverna que vae marcada na carta prehistorica pertencente á região do cabo de S. Vicente, comquanto fiquem mais algumas sem indicação, o que só poderá supprir-se, se se chegar a tratar do estudo especial das cavernas. Está sobre o flanco esquerdo da enseada defendida pela fortaleza da Balieira (que tambem defende o flanco esquerdo da enseada de Sagres) e a margem direita da ribeira, ou antes pequeno rio de Benaçoitão. Parece ser uma das grandes cavernas da costa do sul. É larga a sua entrada e accessivel a um batel. A abobada do seu magestoso atrio é um tanto abatida. É mui visitada por caçadores de pombos bravos. Nada se sabe porém das suas ramificações e dos seus mysterios. Pertence comtudo a uma região, fechada por uma serie de pontos em que são frequentes os instrumentos de pedra polida, taes como o cabo de S. Vicente, Catalão, Villa do Bispo, Sellanitos, Budens e Areias.»
ESTAMPAS:


Em 1945, António de Barros Machado e Bernardino de Barros Machado publicam o seu Inventário das Cavernas Calcárias de Portugal
Organizado por Distritos,  Concelhos e Freguesias, na sua página 21, inventaria 6 cavidades no Concelho de Vila-do-Bispo: 1 na Freguesia de Budens; 4 na Freguesia de Sagres; 1 na Freguesia de Vila-do-Bispo. 
De notar a referência às 4 cavernas (acima) referidas por Estacio da Veiga, em 1886, no volume I das suas Antiguidades Monumentaes do Algarve.
Segue-se a transcrição do texto:

MACHADO, A. de B. e MACHADO, B. de B. (1945) – Inventário das Cavernas Calcárias de Portugal. Separata de O Instituto, vol. 105. Coimbra.

Distrito de FARO, Concelho de Vila-do-Bispo (p. 21)

Freg. Budens:
(96) Gr., perto da povoação.

Freg. Sagres:
(97) Fojos da Ponta de Sagres, no extremo da Ponta de Sagres, à esquerda do posto semafórico, O [CORTESÃO, Jaime (1927) – Sagres. In Guia de Portugal. PROENÇA, vol. 2, p. 314].
(98) Furna do Beliche-Velho, na costa maritime, entre a fortaleza de Beliche e a ponta de Sagres [VEIGA, E. da (1886) – Antiguidades Monumentaes do Algarve - Tempos Prehistoricos, vol. I. Lisboa: Imprensa Nacional, p.61].
(99) Furna de João-Vaz, «sôbre o flanco esq. da enseada defendida pela Fortaleza da Balieira e a margem direita da ribeira de Benaçoitão» [VEIGA, E. da (1886) – Antiguidades Monumentaes do Algarve - Tempos Prehistoricos, vol. I. Lisboa: Imprensa Nacional, p.61].

Freg. Vila-do-Bispo:
? (100) Gr. dos Ouriçais, «junto à praia da Roiçada ou do Telheiro, 1 km a NO da ponta do cabo e outro a S do Leixão de S. Vicente sôbre a costa ocidental» [VEIGA, E. da (1886) – Antiguidades Monumentaes do Algarve - Tempos Prehistoricos, vol. I. Lisboa: Imprensa Nacional, p.60].
? (101) Cav. da Barriga, a NE e distante da ponta do Cabo de S. Vicente uns 5 km e uns 6 para O.SO de Vila-do-Bispo [PROENÇA, R. (1924) – Guia de Portugal, vol. 1, LXIV, Lisboa: Biblioteca Nacional, p.319] [VEIGA, E. da (1886) – Antiguidades Monumentaes do Algarve - Tempos Prehistoricos, vol. I. Lisboa: Imprensa Nacional, p.319].